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Desorientação

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La désorientation. Paris: Galilée, 1996.

** 1. A finitude retencional e o dinamismo do quê **

1. A técnica não ajuda a memória: ela é a memória enquanto “finitude retencional” originariamente assistida, sendo a história dessa assistência, também tecno-lógica conquista territorial até a atual mundialização, o objeto de La Mémoire et les Rythmes.

  • Nessa mundialização final, é o próprio Ocidente que desaparece, desorientado, no contexto sem cardinalidade em que se enfrentam as três religiões do Livro e o mundo laico dos livros, no momento em que a hegemonia ortográfica atinge seu termo.
  • A espacio-temporalização que é a exteriorização enquanto “conquista do espaço e do tempo” é sempre já também destemporalização e desterritorialização, processo que hoje atinge o limite cuja experiência é essa desorientação.

2. Retomando a questão do parentesco entre corticalização e diferenciação técnica pelo conceito de epifilogênese, revisita-se Leroi-Gourhan para aprofundar a tecnicidade da memória e a relação entre o técnico e o étnico, socle do idiomático.

  • O Zinjantropo é social e idiomático desde já, dispondo de linguagem em sentido pleno, mesmo que radicalmente inconcebível para nós; após Neandertal surge o agrupamento étnico, e a preponderância da sociedade desloca a maiêutica do córtex/sílex para uma maiêutica entre grupo étnico e tendência técnica.
  • Questiona-se se o Dasein (Dasein) é o quem individual ou o grupo divisível de fato mas indivisível de direito — questão primordial, pois se o Dasein (Dasein) fosse afinal um nós, a oposição entre intratemporalidade e temporalidade autêntica tornar-se-ia problemática.
  • O idiomático, sempre já étnico e comum, mas idiomático em seus efeitos apenas como singularidade fora do comum, supõe superada a oposição entre programa e improvável, entre quê e quem — o idiomático seria constituído pelo quê, tal como a questão da ortotese já tornara pensável.

3. Leroi-Gourhan expõe uma estruturação da memória em três níveis — específico, sócio-étnico e individual — desenvolvendo depois a hipótese de uma quarta memória, a máquina programada, que expulsa o quem de sua etnicidade destruindo as cadeias operatórias elementares.

  • O programa é também possibilidade de deshabituação, isto é, de descontextualização: a história do quê tem sido sempre uma sucessão de rupturas por suspensão de programas existentes, e a possibilidade de uma improbabilidade destaca-se do simples desenvolvimento do quê.
  • A descontextualização é, enquanto tal, a epifilogênese, o legado de experiências passadas constitutivas da experiência presente — depois do neolítico, o conhecimento é engramado como tal, a tecnicidade se desenvolve ortoteticamente, e a ciência pode emergir.

** 2. Devir étnico, suportes de memória e escrita de programas **

4. No processo pós-neandertaliense, o social se diferencia com a ferramenta numa nova maiêutica instrumental: o devir étnico inicia-se como movimento de diferenciação que já não é apenas enriquecimento das formas técnicas, mas diversificação territorial dos agrupamentos humanos.

  • A extrusão prótesica do esqueleto na ferramenta prossegue até o estágio atual do sistema nervoso central (eletrônica) e da imaginação (produção industrial especializada de imagens e sons teledifundidos), passando pelo músculo — a própria imaginação sendo afetada significa que a exteriorização é também princípio da estética.
  • Em 1965, contrariamente a 1945, Leroi-Gourhan admite a possibilidade de desaparecimento do agrupamento étnico, falando de constituição de uma mega-etnia como telos do devir étnico, descrito como “libertação” da memória em três níveis correspondendo a uma tríplice estética.

** 3. Épocas e programas **

5. Novos programas suspendem, ao reintegrá-los, os programas em vigor — suspensões geradoras de épocas, incessante epoché que arrisca supor que o próprio programa “homem” possa estar orientado para sua própria suspensão.

  • Ao contrário das camadas husserlianas nas Investigações Lógicas, aqui as camadas são programáticas e atravessadas por um dinamismo tecno-lógico do quê; a colocação fora da espécie zoológica da memória étnica libera o indivíduo do quadro étnico estabelecido e permite à própria memória étnica progredir.
  • O conceito de programa permite superar a partição entre animalidade e humanidade tanto quanto entre humanidade e tecnicidade, sendo princípio federador das ciências ditas “da cognição” — cujos limites de convergência serão examinados adiante.

** 4. A seleção como duplo redobramento epocal: programas, identidades e diferenças **

6. A memória étnica determina práticas automáticas regulando o “comportamento operatório” do indivíduo em programas de periodicidade variável, cujo fundo imutável organiza-se em cadeias de gestos estereotipados garantindo o equilíbrio do sujeito no grupo.

  • As determinações contemporâneas da tendência técnica poderiam destruir essa coesão, dado o avanço do técnico sobre o étnico, enraizado num atraso do corpo — anacronia originária, a epimétheia —, possibilidade que se inicia na revolução termodinâmica: a humanidade muda um pouco de espécie cada vez que muda simultaneamente de ferramentas e instituições.
  • A realização dos programas automáticos é fato culminante na história humana, comparável ao aparecimento do chopper ou da agricultura, atingindo com os programas maquínicos uma verdadeira arqui-epocalidade: a industrialização produz “desculturação técnica” completa e perda de pertencimento a um grupo.
  • Simondon já mostrava a passagem da individualidade técnica do homem ferramenteado à máquina portadora de ferramentas; para Leroi-Gourhan, o homem deve considerar o abandono de seu nome de homo sapiens, tornando-se algo diferente, talvez melhor.

7. Um princípio de seleção duplamente articulado deriva do princípio primordial da exteriorização: de um lado na liberdade do quem (latitude de apropriação da tradição), de outro na dinâmica do quê (a tendência técnica), que atravessa universalmente a diversidade étnica e é sua différance.

  • A técnica seleciona como duplo redobramento: redobramento da tradição pela tendência técnica, meio difratante, e redobramento da tendência técnica pelo quem que antecipa a partir das possibilidades ali celadas, inscrevendo-as programaticamente na memória — donde resulta notavelmente a ortotese.
  • Ligada à “sorte da mão”, cuja regressão manual já compromete parte do pensamento filogeneticamente humano, a perda de participação do coletivo aponta para o problema do “tempo real” e da descontextualização evocados no capítulo anterior, questionando-se as possibilidades de um duplo redobramento epocal nas condições da técnica contemporânea.

** 5. “O que é orientar-se no pensamento?” — Orientar-se no já-aí **

8. “A memória em expansão” enuncia o quadro geral de uma história do suplemento do ponto de vista tecno-lógico, anunciando desde 1965 a evolução para a “magnetoteca”, o hipertexto e o multimídia, primeiros elementos de um estudo da dinâmica epifilogenética.

  • A história da memória coletiva mnemotécnica divide-se em cinco períodos — transmissão oral, escrita com tabelas ou índices, fichas simples, mecanografia, seriação eletrônica —, sendo o corpo de conhecimentos do grupo elemento fundamental de sua unidade e sobrevivência.
  • Com o impresso desenvolve-se a exteriorização progressiva da memória individual e verdadeiros instrumentos de navegação — catálogos, índices, bibliografias — que delegam a iniciativa do quem nesses quês de orientação no acúmulo do saber, teleguiando a leitura.
  • A generalização das fichas perfuradas anuncia a aparição de suportes dinâmicos do já-aí, afirmando-se a continuidade entre animal e homem tal como entre matéria orgânica viva e matéria inorgânica organizada, questão que as “ciências da cognição” contemporâneas mal identificam por conceberem as máquinas cognitivas em termos de substituição mimética do homem.

** 6. Programas e estética **

9. A programatologia de Leroi-Gourhan enriquece o devir com uma necessidade das formas afirmada na diversidade dos comportamentos engendrados pela transmissão não zoológica dos programas, devendo a estética ser pensada desde as tendências vitais mais arcaicas, ligadas à reprodução.

  • A parura vestimentar humana reinscreve-se nas condutas relacionais de todo vivente como marca de pertencimento, poder, guerra e sedução, organizando-se uma tipologia dos programas como ritmias e memórias que sustentam os motivos da estética.
  • Essa integração — estética fisiológica, estética funcional submetida à tendência técnica, estética figurativa portadora do nível simbólico — sugere um mesmo fenômeno de exteriorização indo do mitograma ao atual patamar de especialização entre produtores de matéria estética e consumidores de arte pré-fabricada.

** 7. A marca do estilo e os programas do improvável **

10. O estilo, marca de uma singularização idiomática sempre inscrita num estilo menos pessoal, é indescritível, radicalmente déictico, ponto de ancoragem de toda contextualidade e de toda possibilidade de arrancamento ao contexto — nunca apodíctico, sempre intraduzível.

  • O estilo é a expressão mais imediata da epimétheia e de sua idiotia, marcando-se em toda matéria: reconhece-se de imediato um automóvel “bem inglês” sem que a análise mecânica detalhada baste a explicá-lo.
  • A industrialização, perme abilização do mundo à tendência técnica universal, ameaça o estilo enquanto ocorrência de territorialidade étnica; mas o que deve ser objeto de luto é a territorialidade, não a localidade — pode haver estilo fora do território, acolhendo-se um novo estilo de estilo.

** 8. Paixão do espaço e do tempo, tendência técnica, ritmo **

11. Há uma patologia do lugar, paixão da finitude, cuja obsessão pelo tempo e o espaço tece toda a vida prática, científica e espiritual do homem — organizador do tempo e do espaço no ritmo, no calendário, na arquitetura, mesmo ao retirar-se ao deserto.

  • O jejum do sábio radicaliza a suspensividade constitutiva da vida historial-técnica como arrancamento aos programas cósmicos, ao passo que a sociedade de produção industrial sistematiza a separação entre práticas suspensivas religiosas e estéticas e as do comum dos mortais.
  • Retomando Lacan sobre a gônada da pombinha e a gregarização do grilo, o estilo enraíza-se na própria animalidade em relação com a erótica da reprodução, articulada sobre a programática da tendência técnica e sobre os “estágios do espelho” que ela engendra.

** 9. A velocidade, os programas e o ritmo **

12. É o ritmo que marca a instrumentalização como gramma da velocidade antes de sua decomposição em tempo e espaço abstratos, sendo a separação entre eles convenção puramente técnica: dizer que Moscou está a três horas e meia de voo de Paris expressa realidade mais rica do que os quilômetros que separam as cidades.

  • A superposição aos programas cósmicos, arrancamento ao contexto votado à desrealização do próprio espaço e do tempo, conduz Leroi-Gourhan a descrever o “tempo real” industrial: o indivíduo funciona como célula, elemento do programa coletivo, sobre uma rede de sinais que controla até seu direito à ausência.

** 10. Habitat, tendência técnica e descomunitarização **

13. O habitat, instrumento submetido à estética funcional, responde à tripla necessidade de criar meio tecnicamente eficaz, assegurar quadro ao sistema social e ordenar o universo circundante a partir de um ponto — a territorialização sendo sempre também desterritorialização.

  • O dispositivo técnico da sociedade desde meados do século XIX colocou-se numa escala de distâncias desproporcional à órbita em que o homem sempre encontrara seu equilíbrio funcional, atingindo hoje uma industrialização da memória que engendra as novas ortoteses.
  • À forma de comunidade que repousa numa comunitarização simbólica sucede uma descomunitarização pela exteriorização do imaginário, que suspende as formas de participação direta — descomunitarização também do amor e das condições de reprodução da espécie, ligando identidades diferentes analógicas, numéricas e biológicas.
  • Esse deslocamento tem por correlato uma delegação simbólica do heroísmo engendrando nova “cultura da morte”: o homem já não desempenha ativamente o papel de herói de sua própria aventura étnica, mas assiste ao jogo de representantes convencionais para satisfazer seu carecimento natural de pertencimento.

** 11. Do mitograma ao ortograma, velocidade e pensamento **

14. A industrialização da memória supõe especialização dos produtores de símbolos e um consumismo possibilitados pelas identidades diferentes analógicas e numéricas, coincidindo o retorno ao mitograma com a alfabetização generalizada.

  • As identidades diferentes analógicas seriam operadores pós-literais fazendo sair a memorização da linearidade — não simples reaparição de mitogramas, mas ortogramas, pois foi seu desdobramento unidimensional que fez da escrita o instrumento de análise de onde saiu o pensamento filosófico e científico.
  • Se o pensamento é experiência do aberto, isto é, do tempo como indeterminação celada na falha essencial do já-aí, o pensamento é “perda de tempo” — é preciso o cálculo para poder dispensar-se do cálculo, sendo o alfabeto já tal máquina de calcular, acelerar e diferir.

** 12. O novo desvio **

15. La Mémoire et les Rythmes expõe sistematicamente os princípios dinâmicos das memórias, onde o conceito de programa articula os programas cósmicos, os ritmos corporais e simbólicos, conduzindo finalmente à exteriorização do sistema nervoso e do imaginário.

  • Os três níveis de memória são níveis programáticos, isto é, gramáticas; a quarta memória, suporte gramatical que tardiamente ganha dinâmica própria como máquina programável autônoma, já era a condição de constituição de todas as gramáticas anteriores — sua autonomia aparente é ilusão.
  • Resta hoje a questão do quem?, sem o qual não há idioma: pode-se imaginar diferenças idiomáticas não apenas nômades mas propriamente aterritoriais, com todas as consequências, notadamente a destruição da contextualidade, num novo e grande desvio que faz necessariamente época dado que a velocidade do desenvolvimento se torna central para uma humanidade essencialmente retardatária.
  • Do mitograma ao ortograma, o ente instala-se e destaca-se como programa: essa programatologia é a efetividade da gramatologia, efetuação da différance como história do suplemento — e como apagamento, inscrição que apaga sobreimprimindo — restando, no redobramento por vir, reconstituir uma cardinalidade além do Oriente e do Ocidente.
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