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Mecanismo

WIENER, Norbert. Cibernética e Sociedade. São Paulo: Cultrix, 1968.

O mecanismo e a história da linguagem

1. Nenhuma teoria da comunicação pode evitar o problema da linguagem, sendo esta também o nome dos modos de comunicação, ou seja, dos códigos, presentes na comunicação entre pássaros, macacos e insetos através de signos compreensíveis apenas por quem possui o código apropriado.

2. As comunicações humanas distinguem-se das demais pela delicadeza e complexidade do código utilizado e pelo alto grau de arbitrariedade desse código, transmitindo os animais principalmente emoções e coisas, mas não relações complicadas entre elas.

3. O comportamento verbal animal, em geral um dado fixo da espécie sem história própria, contrasta com casos como o papagaio e o corvo, capazes de imitar sons ambientais dentro de limites estreitos, sem contudo alcançar a capacidade humana de organizar sons em código significativo.

4. Os pássaros capazes de imitar seres humanos são sociais, de vida longa e boa memória, podendo replicar apropriadamente sons humanos, mas jamais atingindo a facilidade humana de atribuir significado a sons novos e criar estruturas lógicas superiores.

5. A linguagem não é atributo exclusivo dos seres vivos, sendo compartilhada até certo ponto pelas máquinas, e a preocupação humana com a linguagem constitui possibilidade inata que precisa ser desenvolvida pela educação.

6. É possível conceber comunicação e linguagem não apenas entre pessoas, mas também entre pessoa e máquina, e entre máquinas entre si.

7. Usinas hidrelétricas instaladas em regiões remotas do Oeste americano ou do norte do Canadá poderiam funcionar sem pessoal permanente, exigindo apenas visitas ocasionais de um engenheiro.

8. Essa automação exige máquinas capazes de impedir conexões inadequadas de geradores até que atinjam frequência, tensão e fase corretas, além de responder a todos os imprevistos elétricos, mecânicos e hidráulicos, desde que o regime de funcionamento seja constante.

9. Como a carga de um gerador depende de variáveis como demanda industrial, emergências e até nuvens, a central automática deve manter comunicação constante com o distribuidor de carga, que precisa saber se suas ordens foram executadas, configurando diálogo entre homens e máquinas.

10. É normal atribuir às máquinas certas características humanas ausentes nos animais inferiores, como as formigas, podendo essas máquinas continuar funcionando independentemente da presença humana.

11. A linguagem transmitida à máquina pode ser avaliada, do ponto de vista cibernético, pela sua quantidade de informação, mas isso corresponde à informação transmitida a um receptor perfeito, e não à informação efetivamente recebida por um receptor real.

12. A ação efetiva da central elétrica, como abrir comutadores ou sincronizar geradores, pode ser considerada linguagem própria com sistema de probabilidades ligado à sua história, existindo geralmente etapa de tradução entre canal e receptor onde informação se perde irreversivelmente, forma cibernética da segunda lei da termodinâmica.

13. Os sistemas de comunicação com terminais mecânicos geralmente terminam em máquinas, mas aqueles que transportam a linguagem comum terminam em máquina particular: o próprio homem, cuja rede de comunicação apresenta três níveis distintos.

14. O primeiro nível da linguagem comum corresponde ao ouvido externo e interno e à parte do cérebro a ele ligada, com função fonética de recepção dos sons da linguagem.

15. O aspecto fonético relaciona-se ao som e o semântico ao significado, sendo possível fabricar pseudo-linguagem foneticamente semelhante ao inglês mas semanticamente vazia, assim como um estrangeiro pode falar semanticamente bem porém foneticamente mal.

16. Determinar as características do receptor fonético humano é possível, sabendo-se que ouvido e cérebro filtram frequências muito altas, sendo porém mais difícil medir a informação semanticamente significativa.

17. A recepção semântica exige recurso à memória e processos longos, associando-se a abstração não apenas a conjuntos neuronais permanentes mas também a sistemas detectores formados por pools intercalares disponíveis temporariamente.

18. Além dos conjuntos permanentes situados em regiões sensoriais especiais do cérebro, existem conexões temporárias, como reflexos aprendidos, que dependem de limiares sinápticos e de neurônios disponíveis, correspondendo provavelmente aos pools intercalares dos neurofisiologistas.

19. O aparelho semântico não traduz a linguagem palavra por palavra, mas ideia por ideia, recorrendo constantemente à experiência passada para interpretação.

20. Existe um terceiro nível de comunicação, tradução de parte dos estágios semântico e fonético em ações externamente observáveis, denominado estágio do ato de comportamento.

21. Esse estágio comportamental é o único observável integralmente em animais inferiores, distinguindo-se atos diretos e grosseiros dos atos codificados e simbólicos que constituem a linguagem falada ou escrita.

22. Observações gerais demonstram que a linguagem fonética perde informação ao chegar ao receptor, e que a linguagem semântica e comportamental perdem ainda mais, corolário da segunda lei da termodinâmica.

23. Intriga há tempos os psicólogos o motivo pelo qual chimpanzés, criados como crianças humanas e semelhantes a elas, não desenvolvem a fala nem balbuciam como bebês.

24. Todos os chimpanzés observados permanecem bons chimpanzés, não sendo questão de pura inteligência, mas de a fala e a vontade de falar serem estranhas à natureza do animal.

25. A fala é atividade tão especificamente humana que permanece estranha aos parentes mais próximos da espécie, cujos sons carecem da organização, finesse e precisão necessárias a um verdadeiro código, aparecendo por vezes como manifestação inata e não aprendida.

26. É notável que a fala seja própria do homem enquanto homem e também enquanto membro de sociedade determinada, não existindo comunidade humana sem seu próprio modo de fala, sendo todos esses modos aprendidos, sem base em forma inata única de linguagem.

27. Bebês abandonados a si mesmos tentam falar, mas sem seguir forma linguística existente, de modo que uma comunidade de crianças isoladas de todo contato com a linguagem dos mais velhos desenvolveria, ainda que rudimentar, uma linguagem própria.

28. É indispensável compreender por que os aspectos gerais da linguagem são uniformes entre comunidades enquanto suas manifestações particulares são extremamente variadas, residindo na estrutura cerebral humana a preocupação com códigos, sem que nenhum código específico seja inato.

29. O obstáculo que impede o jovem chimpanzé de falar situa-se no estágio semântico, e não no fonético, faltando-lhe estrutura mental para traduzir sons ouvidos em fundamento de suas próprias ideias.

30. A extraordinária aptidão humana para aprender diferencia radicalmente sua vida social daquela das abelhas e formigas, sendo ambíguos os relatos sobre crianças privadas de contato humano durante o período crítico de aquisição da linguagem, como nas histórias de crianças-lobo.

  • existe período crítico de fácil aprendizagem da fala, após o qual sua aquisição torna-se limitada, lenta e imperfeita

31. Isso vale também para outras aptidões consideradas naturais, como o exemplo da criança que não anda aos três ou quatro anos ou do cego de nascença operado, cuja visão inicialmente gera apenas confusão, podendo a fala, pilar da vida social, atrofiar-se socialmente se não aprendida a tempo.

32. O interesse humano pela linguagem parece ser interesse inato pela codificação e decodificação, sendo a fala o maior interesse e a realização mais característica do homem.

33. A formação pessoal com um pai filólogo despertou interesse precoce pelas questões da linguagem, propondo-se refletir, como amador, sobre a história da linguagem e de suas teorias, à luz da moderna teoria das comunicações.

34. O homem sempre viu mistério na linguagem, sendo o enigma da Esfinge forma primitiva de sabedoria, associando-se em muitos povos primitivos escrita e feitiçaria, como no respeito chinês por fragmentos escritos.

35. A concepção mágica do nome, exemplificada pelo caso de Jeová entre os judeus, conduz a interesse mais profundo e científico pela linguagem, atestado pela crítica textual antiga voltada à preservação pura de textos sagrados em diversas civilizações.

36. Durante boa parte do século passado, a história da filologia reduziu-se a dogmas que revelam surpreendente ignorância sobre a natureza da linguagem, aplicando-se sem crítica o modelo evolucionista darwiniano.

37. As antigas hipóteses sobre o hebraico como língua original e a Torre de Babel têm apenas interesse como precursoras do pensamento científico, mas desenvolvimentos filológicos posteriores mantiveram ingenuidade semelhante.

  • filólogos da Renascença já percebiam o parentesco entre línguas, evidenciado por obras como o Glossarium de Du Cange e pelos estudos que revelaram a relação entre grego, latim e sânscrito
  • os trabalhos dos irmãos Grimm e do dinamarquês Rask estabeleceram claramente as relações entre as línguas indo-europeias e uma hipotética língua original comum

38. O evolucionismo linguístico, anterior ao darwinismo biológico, presumiu equivocadamente que as línguas eram entidades quase biológicas independentes, quando na verdade são epifenômenos das relações humanas sujeitos às forças sociais.

39. Apesar da existência de línguas compostas como o yiddish e o swahili, tentava-se atribuir a cada língua um único ancestral legítimo, distinguindo-se rigidamente formações fonéticas regulares de acidentes como gírias e etimologias populares, impondo-se ainda paradigmas gramaticais rígidos.

40. Somente com a obra de Otto Jespersen a filologia passou a considerar a linguagem tal como efetivamente falada e escrita, sendo o latim exemplo de língua morta pelo purismo gramatical excessivo de seus próprios praticantes.

41. Durante a Idade Média, o latim de qualidade variável permaneceu língua universal do clero e dos instruídos europeus, prestígio mantido pela disposição de incorporar elementos necessários à discussão de problemas filosóficos vivos.

42. O desenvolvimento das línguas vulgares não significou necessariamente o fim do latim, havendo paralelos como a vitalidade do sânscrito na Índia e do árabe clássico no mundo muçulmano, podendo uma língua permanecer erudita por séculos mesmo sem uso corrente, como demonstra o hebraico moderno.

43. A partir da Renascença, os latinistas tornaram-se cada vez mais rigorosos e distantes dos neologismos pós-clássicos, criando abismo entre quem ensinava e quem usava o latim, até que os próprios especialistas destruíram sua função ao ensinarem discurso ciceroniano impraticável.

44. A atitude dos defensores dos estudos clássicos ultrapassa frequentemente a compreensão razoável, exemplificada por discurso que lamentava a dispersão do conhecimento em jargões técnicos, esquecendo que o próprio Aristóteles é conhecido apenas por anotações de discípulos escritas em jargão técnico obscuro.

45. As modernas perspectivas sobre linguagem assimilam a tradução linguística e a interpretação pelo ouvido e cérebro às operações de redes de comunicação não humanas, alinhando-se com as posições outrora heréticas de Jespersen, segundo as quais a gramática trata de fatos e não de normas.

46. O ponto de vista normativo entra em jogo apenas na fase mais refinada e final do estudo da linguagem, e não nos estágios fundamentais.

47. A comunicação face a face constitui o elemento mais simples da comunicação humana, tendo invenções como o telefone e o telégrafo demonstrado que essa faculdade não depende da presença imediata dos interlocutores.

48. Entre povos primitivos, a dificuldade de transmitir a fala a distância limitava por milênios a dimensão ótima do Estado, sendo grandes impérios como o Persa e o Romano viabilizados por meios avançados de comunicação, como suas estradas.

49. Com avião e rádio, a palavra dos governantes atinge hoje os confins do globo, tornando inevitável considerar um Estado mundial, embora os mecanismos de comunicação permaneçam sujeitos às perdas entrópicas sem controle externo.

50. O filólogo de sensibilidade cibernética concebe o discurso como jogo entre falante e ouvinte contra as forças da desordem, tendo o Dr. Mandelbrot estudado a distribuição do comprimento das palavras em uma língua ótima e comparado-a às línguas existentes.

  • a distribuição ótima difere das línguas artificiais como o esperanto, mas corresponde notavelmente à das línguas vivas mais duradouras
  • embora dependam de parâmetros arbitrários, as fórmulas de Mandelbrot indicam seleção natural conduzindo as línguas vivas a distribuição próxima do ótimo

51. O desgaste da linguagem decorre tanto da tendência natural à desordem quanto de tentativas humanas deliberadas de subverter seu significado, devendo uma teoria adequada distinguir a comunicação neutra de informação da situação de disputa consciente de sentido, como ocorre em debates jurídicos.

52. O desejo de aplicar a cibernética à semântica como disciplina de controle da perda semântica exige distinguir informação bruta da informação suficiente para desencadear ação real, seja em seres humanos seja em máquinas.

53. Toda transmissão ou tratamento de mensagens reduz a quantidade de informação contida, salvo adição de informação nova extraída do ambiente ou da memória, sendo isso outra formulação da segunda lei da termodinâmica, exemplificada pelo sistema de controle remoto de uma central elétrica, cujo maquinário terminal funciona como filtro sobre o canal de transmissão.

  • a informação semanticamente significativa é aquela que atravessa o conjunto canal-filtro, como ilustrado pela compreensão musical que depende do treinamento do ouvinte
  • do ponto de vista cibernético, a semântica define a extensão do sentido e controla sua perda no sistema de comunicação
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