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WIENER, Norbert. GOD AND GOLEM, Inc.

1. A investigação das relações entre religião e ciência pode concentrar-se nos pontos em que as ciências da comunicação e do controle se aproximam da problemática religiosa, evitando-se inicialmente os paradoxos lógicos produzidos pelas pretensões extremas de tratar conhecimento, poder e culto apenas sob as formas absolutas da Onisciência, da Onipotência e da Divindade única.

2. Conhecimento, poder e culto constituem fatos suscetíveis de investigação humana independentemente da aceitação prévia de uma teologia, podendo ser examinados mediante analogias com domínios mais acessíveis aos métodos das ciências naturais.

  • O conhecimento pode ser estudado como fenômeno efetivo sem pressupor a Onisciência.
  • O poder pode ser analisado em suas manifestações concretas sem recorrer imediatamente à Onipotência.
  • O culto pode ser investigado como fato humano sem exigir a adesão antecipada a uma doutrina religiosa absoluta.
  • Tal procedimento permite abordar esses fenômenos sem assumir como princípio a atitude expressa pela fórmula credo quia incredibile est.

3. A delimitação da investigação situa-se nos problemas de comunicação e controle em máquinas e organismos vivos, nas técnicas de engenharia e fisiologia associadas a essas noções e nas consequências dessas técnicas para a realização dos fins humanos, constituindo um prolegômeno indispensável a uma reconsideração das relações entre ciência e religião.

  • O conhecimento encontra-se inseparavelmente ligado à comunicação.
  • O poder encontra-se relacionado ao controle.
  • A avaliação dos fins humanos conduz à ética e à dimensão normativa da religião.
  • Os desenvolvimentos recentes da teoria e da técnica tornam necessária a revisão das concepções tradicionais desses problemas.

4. Uma investigação capaz de produzir conhecimento exige a remoção das camadas de preconceito que, sob a aparência de proteger aquilo que se considera digno e sagrado, frequentemente servem para evitar o confronto com realidades desagradáveis e comparações consideradas perigosas.

5. O exame das questões efetivas deve assumir o rigor incisivo de uma intervenção destinada a conhecer a realidade, e não o caráter cerimonial de uma veneração incapaz de investigar, pois o escrúpulo excessivo diante de temas considerados sagrados torna-se incompatível com uma pesquisa intelectual consequente.

6. A religião pode adquirir formas sociais e simbólicas fossilizadas, marcadas pela solenidade, pela preservação ritual de aparências e pela afirmação de status, das quais é necessário distingui-la rigorosamente enquanto questão séria e irredutível a valores pessoais ou convenções sociais de importância inferior.

  • A religiosidade pode ser revestida por uma atmosfera de conservação doméstica, cerimonial e sentimental que transforma o sagrado em objeto de veneração imóvel.
  • Pode igualmente associar-se à ostentação social, prolongando simbolicamente hierarquias e pretensões de status até mesmo na morte.
  • A seriedade própria da religião exige sua separação dessas formas secundárias de valorização social e pessoal.

7. Os preconceitos que dificultam a investigação do terreno comum entre ciência e religião aparecem em proibições destinadas a preservar separações consideradas sagradas, como a recusa de aproximar Deus e o ser humano, o ser humano e os demais animais ou a evolução biológica e os valores humanos.

  • A dignidade humana foi tradicionalmente protegida mediante a exigência de tratar o ser humano segundo princípios inteiramente diferentes daqueles aplicados aos animais.
  • A teoria da evolução e a origem das espécies puderam ser interpretadas como profanações dos valores humanos.
  • A resistência a essas aproximações tornou historicamente perigosa a investigação científica em ambientes profundamente desconfiados da ciência.

8. Mesmo no interior da ciência persistem hierarquias conceituais que proíbem aproximar organismos vivos e máquinas, supondo-se que a vida possua em todas as suas partes uma natureza radicalmente distinta da matéria organizada tecnicamente e que a física não possa incorporar qualquer consideração relativa à finalidade.

  • Os seres vivos são concebidos como integralmente vivos, enquanto as máquinas seriam compostas apenas de metais e outras substâncias não organizadas segundo estruturas relevantes para funções finalizadas.
  • A física costuma ser considerada indiferente à finalidade.
  • A emergência da vida é então tratada como aparecimento de uma realidade absolutamente nova e descontínua em relação aos processos físico-mecânicos.

9. A submissão aos tabus intelectuais pode garantir reputação de prudência e ortodoxia, mas pouco contribui para o avanço do conhecimento, que exige a consideração experimental e efetivamente séria de opiniões heréticas ou proibidas por cientistas, intelectuais e religiosos.

  • Uma hipótese heterodoxa não deve ser considerada apenas para produzir uma aparência de abertura intelectual enquanto sua rejeição já estiver previamente decidida.
  • A investigação só possui valor quando a possibilidade de aceitar uma conclusão herética permanece realmente aberta.
  • A busca intelectual rigorosa implica assumir com honestidade os riscos associados à contestação das crenças estabelecidas.
  • A disposição extrema de colocar as próprias certezas em risco pode ser figurada pela pergunta calvinista acerca da disposição de aceitar a própria condenação para a maior glória de Deus.

10. A crítica rigorosa deve também enfrentar a evasão produzida pelo uso de falsos superlativos religiosos, especialmente nas noções de Onipotência e Onisciência, cujas dificuldades conceituais aparecem de modo elementar no paradoxo de saber se Deus poderia criar uma pedra tão pesada que Ele próprio fosse incapaz de levantá-la.

  • Se tal pedra não pudesse ser criada, pareceria haver um limite ao poder divino.
  • Se pudesse ser criada, a incapacidade de levantá-la também pareceria impor um limite ao mesmo poder.
  • O paradoxo revela dificuldades conceituais internas à formulação absoluta da Onipotência.

11. O paradoxo da Onipotência não constitui apenas um jogo verbal, pois pertence à classe mais ampla de dificuldades produzidas pelo conceito de infinito, cuja manipulação matemática gera formas indeterminadas porque o infinito não se comporta segundo as propriedades ordinárias dos números e das quantidades.

  • Expressões como zero dividido por zero, infinito dividido por infinito, infinito multiplicado por zero e infinito menos infinito constituem formas indeterminadas.
  • A expressão ∞/∞ representa matematicamente um limite de x/y quando ambas as variáveis tendem ao infinito, e não uma divisão ordinária entre duas quantidades definidas.
  • O resultado desse limite depende da relação entre as variáveis e pode assumir valores distintos conforme sua forma funcional.

12. Uma modalidade diferente de infinito surge no próprio ato de contar e conduz igualmente a paradoxos, pois a pergunta sobre o número de elementos pertencentes à classe de todos os números não pode ser formulada legitimamente como se houvesse um número capaz de abranger a totalidade dos números.

  • Qualquer número proposto para representar a quantidade de todos os números pode ser ultrapassado por outro número.
  • Essa dificuldade pertence aos paradoxos associados a Frege e Russell.
  • Sua abordagem exige as distinções estabelecidas pela teoria dos tipos.

13. Onipotência e Onisciência funcionam menos como superlativos metafisicamente rigorosos do que como formas emotivas de afirmar poder e conhecimento imensamente superiores, de modo que a reverência religiosa não deve ser convertida artificialmente em conceitos intelectuais absolutos cuja coerência não pode ser sustentada.

  • Se Deus ultrapassa o intelecto humano e não pode ser encerrado em formas intelectuais, torna-se contraditório exigir que essas mesmas formas expressem adequadamente atributos divinos absolutos.
  • Não é intelectualmente legítimo impor ao conceito de Deus determinações formais precisas e simultaneamente declarar que ele ultrapassa toda determinação intelectual.
  • Situações limitadas capazes de esclarecer afirmações religiosas não devem ser descartadas apenas porque não apresentam o caráter absoluto, infinito e completo tradicionalmente atribuído à linguagem religiosa.

14. Situações dotadas de significado religioso podem ser esclarecidas mediante analogias limitadas com fenômenos pertencentes à cibernética, entendida como ciência da comunicação e do controle em máquinas e organismos vivos, sem que essas analogias sejam tomadas como identificações completas entre os dois domínios.

15. A aplicação de categorias cibernéticas a situações religiosas exige inevitavelmente certa violência conceitual, mas essa deformação controlada pode ser metodologicamente legítima quando funciona como instrumento de investigação, assim como o corte anatômico produz conhecimento precisamente por intervir materialmente naquilo que examina.

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