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Caminhadas

CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Dark hero of the information age: in search of Norbert Wiener, the father of cybernetics. New York: Basic books, 2005.

** Caminhadas de Wiener II **

1. A dificuldade de encontrar companhia verdadeiramente afim convive com a facilidade de estabelecer relações pessoais intensas, mas invariavelmente transitórias, fazendo da proximidade humana uma experiência marcada pela separação e pela consciência de que apenas pequenos trechos do caminho podem ser percorridos em conjunto. — J. W. von Goethe, Os sofrimentos do jovem Werther

2. A fama recém-adquirida não modificou substancialmente as rotinas de Wiener no MIT, onde continuou sendo uma presença familiar, excêntrica e intelectualmente expansiva.

  • Circulava pelo instituto com postura característica, charuto à mão, expondo com igual entusiasmo observações espirituosas e ideias científicas a estudantes, funcionários administrativos, zeladores e colegas.
  • Seu escritório no Edifício 2 permanecia coberto de folhas soltas com textos e anotações matemáticas, cuja organização dependia de sucessivas secretárias que desempenhavam no trabalho função semelhante à exercida por Margaret em casa.
  • Sua maneira de vestir manteve-se inalterada, baseada em ternos discretos, frequentemente de tweed claro.
  • A preferência por roupas claras tinha uma razão prática: ao escrever no quadro-negro, Wiener costumava encostar-se inadvertidamente nele, o que tornava inconvenientes tecidos escuros.

3. A progressiva deterioração da visão dificultava até mesmo sua orientação espacial, levando-o a inventar uma solução óptica própria que, embora funcional, acentuava sua aparência excêntrica.

  • Pediu ao optometrista bifocais invertidos, com lentes de leitura na parte superior e lentes para distância na inferior.
  • Para enxergar o caminho enquanto andava, precisava inclinar a cabeça fortemente para trás.
  • Essa postura produzia nos interlocutores a impressão involuntária de que Wiener os observava de cima, com ar de superioridade.

4. O modo formal de falar de Wiener era frequentemente interpretado como afetação, embora correspondesse autenticamente à formação intelectual recebida do pai e à cultura linguística do final do século XIX.

  • Apesar da modernidade revolucionária de suas concepções científicas, sua expressão verbal fazia-o parecer cada vez mais um anacronismo vivo.
  • Sua fala preservava clareza, desenvolvimento completo das frases e ausência de elipses.
  • A formalidade não constituía ornamentação artificial, mas uma forma direta e profundamente interiorizada de organizar o pensamento e a linguagem.

5. Wiener continuava ministrando o curso fundamental de análise harmônica e suas aplicações à engenharia, embora a extraordinária capacidade matemática nem sempre se convertesse em clareza pedagógica para estudantes comuns.

  • Oliver Selfridge considerava suas aulas praticamente incompreensíveis.
  • Quando substituía ocasionalmente professores ausentes, a distância entre seu modo de pensar e o nível introdutório dos cursos tornava-se ainda mais evidente.
  • Numa tentativa de ensinar cálculo elementar, começou a preencher o quadro com cálculos, perdeu o fio da exposição e simplesmente abandonou a sala sem retornar.

6. A capacidade de Wiener para chegar rapidamente a uma solução matemática não significava capacidade equivalente para explicar os passos intermediários necessários a outra pessoa.

  • Ao ser solicitado por Mildred Siegel a esclarecer um problema de cálculo, respondeu imediatamente que o resultado era cinco.
  • Quando ela afirmou não compreender, Wiener prometeu resolver o problema de outra maneira, refletiu novamente e repetiu simplesmente que a resposta era cinco.
  • O episódio evidenciava a distância entre uma intuição matemática quase instantânea e as exigências didáticas de explicitar o percurso racional que conduz ao resultado.

7. Wiener percorria incansavelmente o MIT e fazia visitas inesperadas aos escritórios dos colegas, comportamento recebido simultaneamente como estímulo intelectual e intrusão.

  • Seu cumprimento habitual consistia em perguntar como as coisas estavam indo, mas geralmente iniciava imediatamente a exposição de sua ideia mais recente sem esperar pela resposta.
  • Para colegas como Jerome Wiesner, essas aparições constituíam momentos privilegiados do cotidiano acadêmico.
  • A imprevisibilidade do assunto não diminuía o interesse, porque qualquer preocupação que ocupasse Wiener podia transformar-se numa discussão intelectualmente estimulante.

8. Alguns engenheiros, entretanto, consideravam as visitas de Wiener tão invasivas e extenuantes que organizaram um sistema coletivo para evitá-lo.

  • Um observador era colocado estrategicamente para anunciar sua aproximação.
  • Ao receber o aviso, os demais se dispersavam ou se escondiam, chegando a refugiar-se no banheiro.
  • Havia colegas que se ocultavam sob a própria mesa para escapar de uma conversa.
  • Parte do desgaste decorria da expectativa de Wiener de que os interlocutores demonstrassem entusiasmo intenso por suas pesquisas enquanto ele próprio as descrevia em termos grandiosos.
  • A convivência podia, assim, combinar extraordinária fertilidade intelectual com forte exigência emocional sobre aqueles que participavam dela.

9. Um professor chegou a considerar financeiramente dispendiosos seus encontros fortuitos com Wiener porque o esforço de simular o grau de entusiasmo esperado o deixava exausto e inseguro em relação ao próprio trabalho.

  • Depois dessas conversas, procurava atendimento psiquiátrico para recuperar a confiança.
  • O custo das consultas ultrapassava suas possibilidades financeiras.
  • Permanecia incerto se esse desgaste contribuiu para sua saída precoce do MIT.

10. Wiener tampouco oferecia sistematicamente aos colegas a atenção que exigia deles, pois seu interesse intenso concentrava-se sobretudo em problemas que despertavam sua curiosidade ou na avaliação externa de sua própria obra.

  • Podia ouvir atentamente quando surgia um teorema novo e intelectualmente provocador, mas frequentemente demonstrava pouca curiosidade pelas ideias alheias.
  • Depois de tornar-se famoso, perguntava repetidamente aos colegas o que os demais membros do MIT pensavam dele.
  • Ao ouvir falar de pesquisadores de outras instituições, sua primeira preocupação tendia a ser saber como avaliavam seu trabalho.
  • Durante uma viagem de automóvel com George Pólya, chegou a parar no meio do trânsito de Boston e recusou-se a continuar até receber uma resposta sobre a opinião dos matemáticos de Stanford.
  • Somente depois de ouvir que sua obra era considerada excelente retomou a marcha, permitindo que Pólya chegasse ao aeroporto.

11. A intensidade da atividade intelectual e o excesso de peso contribuíam para que Wiener adormecesse cada vez mais frequentemente em situações profissionais, embora o sono não significasse necessariamente ausência completa de atenção.

  • Seus roncos durante seminários tornaram-se tão conhecidos que participantes do colóquio de matemática Harvard-MIT organizaram informalmente uma competição para ver quem conseguiria mantê-lo acordado durante uma exposição inteira.
  • Um matemático europeu tentou fazê-lo mencionando periodicamente seu nome.
  • Quando a referência a Wiener foi utilizada gratuitamente apenas para despertá-lo, ele se levantou e demonstrou imediatamente que, ao contrário do que afirmara o palestrante, havia efetivamente uma conexão conceitual entre o assunto discutido e seu próprio teorema ergódico.
  • O episódio mostrava que até seu aparente desligamento podia coexistir com surpreendente capacidade de reconstruir relações intelectuais instantaneamente.

12. O hábito de adormecer com um charuto aceso criava também riscos físicos concretos para Wiener e para aqueles ao redor.

  • Em colóquios de física, podia sentar-se na primeira fila, abrir o jornal, acender o charuto e adormecer enquanto a cinza crescia perigosamente sobre o papel.
  • A atenção do público podia deslocar-se da palestra para a possibilidade de o charuto incendiar o jornal.
  • Durante uma visita à Universidade de Illinois em 1949, adormeceu numa apresentação com as luzes apagadas e acabou caindo da cadeira, produzindo estrondo e dispersando faíscas.

13. As histórias sobre as excentricidades de Wiener multiplicaram-se à medida que sua notoriedade crescia, consolidando uma imagem de comportamento social marcado por espontaneidade quase infantil e pouca percepção das convenções.

  • Durante jantares em sua própria casa, podia simplesmente levantar-se assim que terminava de comer, anunciar que iria dormir e abandonar convidados e familiares.
  • Amigos e críticos caracterizavam alguns de seus comportamentos como imaturos, petulantes ou infantis.
  • Margaret descrevia o esforço cotidiano de cuidar do marido distraído, impaciente e excessivamente excitável como equivalente a cuidar simultaneamente de trigêmeos.
  • Essa avaliação não era uma observação ocasional, mas uma queixa repetida com frequência na vida doméstica.

14. A imagem de Wiener como absolutamente dependente dos cuidados da esposa, entretanto, não correspondia integralmente ao comportamento observado por pessoas que conviveram com ele durante períodos prolongados.

  • Margaret possuía forte interesse em apresentá-lo como alguém incapaz de organizar sozinho a vida cotidiana.
  • Durante a guerra, chegou a encarregar Tobey Raisbeck de assegurar que Wiener se alimentasse adequadamente, lavasse as roupas e cumprisse outras necessidades básicas enquanto ambos permaneciam em Cambridge.
  • Na prática, nenhuma supervisão especial se revelou necessária.
  • Wiener mostrou-se plenamente capaz de administrar sozinho as exigências ordinárias.
  • Jerome Lettvin também considerava que, fora dos períodos depressivos, Wiener funcionava de maneira bastante competente.

15. Os anos do pós-guerra incluíam também períodos de genuína alegria familiar, nos quais o cinema ocupava lugar privilegiado.

  • Wiener costumava assistir semanalmente a filmes quando se encontrava emocionalmente bem.
  • Era particularmente apreciador de histórias de mistério e admirador de Alfred Hitchcock.
  • A semelhança física entre Wiener e o cineasta reforçava o caráter pitoresco de sua presença nas salas de cinema.
  • Seu hábito mais inconveniente era anunciar em voz alta, muito antes do desfecho, quem acreditava ser o assassino.

16. Outra preferência pessoal de Wiener era sua atração por mulheres com orelhas furadas, inclinação que comentou abertamente durante uma caminhada noturna por Nova York com Pitts e Lettvin.

  • Ao ver uma mulher usando grandes brincos pendentes, explicou aos companheiros que considerava sexualmente excitantes as orelhas perfuradas.
  • Pitts e Lettvin receberam a confidência sobretudo como uma peculiaridade divertida do amigo mais velho.

17. A atração por orelhas furadas permanecia, segundo Lettvin, uma fantasia inocente sem consequências práticas, mas adquiria significado muito diferente no ambiente doméstico dos Wiener.

  • Margaret interpretava comentários libidinais do marido como manifestações de perversão incompatíveis com sua moralidade tradicional.
  • As filhas já estavam habituadas aos jogos verbais, trocadilhos e insinuações ocasionais do pai durante as refeições.
  • Barbara desenvolveu o hábito de fingir não compreender ou simplesmente ignorar os duplos sentidos.
  • Peggy incomodava-se menos com as falas de Wiener que com as reações maternas.
  • Margaret podia atribuir conotação sexual indevida até mesmo a observações paternas ordinárias sobre o crescimento das filhas.

18. As relações entre Margaret, o marido e as filhas deterioravam-se progressivamente, processo iniciado antes da publicação de Cibernética e que em diversas ocasiões ultrapassou os limites privados da família.

19. Durante a guerra, um episódio escolar envolvendo Barbara intensificou os receios de Margaret em relação à reputação pública da família.

  • Aos treze anos, Barbara recitou em aula passagens de Minha luta, de Hitler, retiradas de um exemplar encontrado sobre a cômoda da mãe.
  • A jovem foi temporariamente suspensa e o episódio gerou comentários na comunidade intelectual de Belmont.
  • Margaret passou a temer que a filha também revelasse aspectos privados da vida doméstica, como as tempestades emocionais de Wiener, suas referências frequentes ao suicídio e as próprias convicções extremas de Margaret.
  • Diante do risco percebido para a reputação científica de Wiener e para a posição social da família, Margaret iniciou uma campanha sistemática destinada a desacreditar preventivamente qualquer relato da filha.

20. Margaret ameaçou Barbara com institucionalização caso revelasse os segredos familiares e procurou ativamente convencer pessoas próximas de que a filha era uma mentirosa perigosa.

  • A ameaça recorria ao destino de um tio da família como exemplo do que poderia acontecer.
  • Parentes, amigos, professores, babás, monitores de acampamento e até o ministro da igreja unitária foram abordados.
  • A advertência afirmava que Barbara possuía o hábito de inventar histórias capazes de destruir reputações masculinas.
  • Criava-se assim uma rede social preventiva destinada a invalidar antecipadamente a palavra da adolescente.

21. O descrédito sistemático imposto a Barbara produziu uma sensação crescente de exclusão e acabou colocando sua própria saúde em risco.

  • Para escapar do ambiente local, convenceu os pais a enviá-la a um internato particular no Canadá.
  • Mesmo ali, a reputação construída por Margaret parece ter acompanhado a jovem.
  • Quando apresentou fortes dores abdominais, a enfermeira recusou inicialmente suas queixas sob a suposição de que costumava inventar problemas.
  • Somente ao retornar para casa, ainda sofrendo, Wiener interveio e chamou o médico da família.
  • Barbara foi hospitalizada e submetida rapidamente a cirurgia para remoção de um apêndice já rompido.

22. Margaret formulou posteriormente nova acusação infundada contra a filha depois de interpretar sexualmente um encontro casual durante uma viagem de trem.

  • Um jovem soldado tentou aproximar-se agressivamente de Barbara, mas teve suas investidas rejeitadas.
  • Ao chegar a Boston, carregou espontaneamente a mala da jovem.
  • Margaret viu os dois desembarcando juntos e concluiu imediatamente que ocorrera envolvimento sexual.
  • No dia seguinte, providenciou um médico para examinar a filha.
  • Wiener percebeu a natureza da acusação, defendeu Barbara, dispensou o médico e garantiu que o episódio não voltaria a ser levantado contra ela.

23. Peggy confirmou que a mãe interpretava de maneira obsessivamente sexual situações nas quais nenhuma implicação desse gênero estava presente.

  • Qualquer tema relacionado à sexualidade provocava intenso desconforto em Margaret.
  • A sensibilidade ultrapassava mesmo as convenções restritivas de sua geração e assumia proporções extremas.

24. A obsessão de Margaret intensificou-se durante uma permanência familiar no México, quando as filhas decidiram furar as orelhas junto com Taffy McCulloch e uma amiga.

  • Taffy, mais velha e socialmente mais experiente, encantara-se com as joias de prata mexicanas.
  • As quatro jovens retornaram ao apartamento usando pequenos anéis de ouro.
  • Margaret reagiu com extrema fúria.
  • A conhecida atração de Wiener por orelhas furadas foi então incorporada às antigas suspeitas dirigidas contra Barbara.

25. Margaret acusou Barbara de tentar deliberadamente seduzir o próprio pai ao furar as orelhas, interpretação considerada pelas filhas e por Taffy uma distorção extrema da situação.

  • Barbara e Peggy pretendiam apenas usar brincos de maneira prática.
  • Para Taffy, o episódio revelava sobretudo a tendência de Margaret a interpretar sexualmente acontecimentos inocentes.
  • Wiener não demonstrou qualquer preocupação com os brincos.
  • Em correspondência com Rosenblueth, avaliou positivamente as experiências mexicanas das filhas por ampliarem seus horizontes e contribuírem para uma compreensão mais madura da vida.

26. As pesquisas de Wiener e Rosenblueth no México avançavam, mas eram prejudicadas pelos atrasos de Walter Pitts, cuja participação experimental fora planejada para aproximar sua teoria matemática das propriedades concretas do sistema nervoso.

  • Pitts deveria colaborar em estudos de fibras nervosas e músculos cardíacos, campos adequados à aplicação de suas capacidades analíticas.
  • A experiência laboratorial também forneceria base empírica à tese de doutorado que preparava.
  • Com apoio de Wiener, Pitts recebera uma bolsa Guggenheim destinada a financiar a pesquisa.
  • Entretanto, manifestava uma combinação problemática de procrastinação crônica e profundo temor de ser avaliado.
  • A aparência de autoconfiança funcionava parcialmente como defesa contra essa insegurança.

27. A rebeldia de Pitts contra autoridades, convenções sociais e ambições profissionais aproximava-o culturalmente dos jovens que pouco depois seriam identificados com a Geração Beat.

  • Essa afinidade incluía a disposição para viagens improvisadas e prolongadas.
  • Durante o verão e o outono de 1946, Pitts, Selfridge e Lettvin atravessaram os Estados Unidos por rotas indiretas.
  • Passaram por Chicago, Colorado e Califórnia antes de finalmente seguir para o México.
  • Enquanto os jovens viajavam, Wiener e Rosenblueth permaneciam no laboratório aguardando a chegada de Pitts.

28. Wiener irritou-se menos com as viagens em si do que com a incapacidade de Pitts de cumprir os compromissos científicos assumidos.

  • A análise matemática rigorosa das redes nervosas aleatórias continuava sem ser produzida.
  • Wiener e Rosenblueth aguardavam o trabalho, assim como a Fundação Guggenheim que financiava Pitts.
  • A constante mobilidade tornava difícil até mesmo localizá-lo.
  • Quando Pitts finalmente chegou ao México em janeiro de 1947, Wiener exigiu disciplina imediata.
  • Rosenblueth recebeu autorização para obrigá-lo a preparar em seis semanas o artigo sobre a mecânica estatística da rede nervosa.
  • Novas viagens deveriam ser desencorajadas ou mesmo impedidas até a conclusão do trabalho.

29. Na primavera de 1947, uma nova dificuldade envolvendo Pitts desencadearia uma crise grave nas relações internas do grupo e produziria consequências inesperadas também para Barbara Wiener.

30. Aos dezesseis anos, depois de concluir o internato e ingressar inicialmente no Radcliffe College, Barbara aproximou-se progressivamente do círculo científico de Wiener.

  • Durante o primeiro período universitário, viajava diariamente com o pai até Cambridge.
  • Depois de um ano solitário como estudante não residente em Radcliffe, transferiu-se para o MIT.
  • Passou então a conviver regularmente com os colegas do pai e com Pitts, Lettvin e Selfridge, conhecidos desde visitas familiares e viagens de verão.
  • Para Barbara, esses jovens constituíam os primeiros amigos masculinos com quem podia conversar e brincar sem perceber expectativas sexuais ocultas.
  • Sua própria experiência afetiva e sexual permanecia, segundo reconhecia, extraordinariamente limitada.

31. No início de 1947, McCulloch ofereceu a Barbara uma oportunidade de formação em seu laboratório na Universidade de Illinois e hospedagem temporária na casa da família.

  • A jovem considerava seguir carreira em biologia e viu na proposta uma possibilidade de aprendizagem efetiva.
  • A mudança também permitiria conquistar independência em relação às pressões emocionais da família.
  • Wiener aprovou o plano depois de receber de McCulloch a garantia de que o trabalho seria real e não uma ocupação artificialmente criada para ela.
  • Em fevereiro, Barbara partiu para Chicago e ingressou simultaneamente no laboratório e no ambiente doméstico dos McCulloch.

32. A casa dos McCulloch apresentou a Barbara um universo cultural radicalmente diferente daquele em que fora criada.

  • A antiga residência rural nos arredores de Chicago recebia continuamente estudantes, pesquisadores e visitantes.
  • McCulloch aparecia como uma espécie de senhor de um domínio intelectual, entrando e saindo enquanto discursava e reunia pessoas ao redor de si.
  • A família orgulhava-se de posições políticas progressistas.
  • Canções da Guerra Civil Espanhola e do movimento sindical faziam parte da atmosfera cotidiana.
  • Uma liberdade sexual explicitamente defendida por McCulloch reforçava aos olhos de Barbara a imagem de um mundo sofisticado, livre e inteiramente novo.

33. A liberdade do ambiente McCulloch contrastava profundamente com a rigidez moral da casa de Margaret Wiener e tinha em Rook McCulloch uma de suas figuras centrais.

  • Rook vinha de uma importante família judaica liberal de Nova York.
  • Mantinha carreira própria como assistente social.
  • Simultaneamente cuidava do marido, dos filhos e dos numerosos jovens pesquisadores acolhidos pela família.
  • Sua tolerância abrangia inclusive os comportamentos extraconjugais de McCulloch, conhecidos nos círculos científicos de Chicago.
  • Para Barbara, essa combinação de liberdade, cuidado e ausência de repressão representava uma experiência social quase inversa à de sua família de origem.

34. Barbara trabalhou com dedicação no laboratório, conquistou maior autonomia pessoal e viveu sua primeira relação amorosa, enquanto os jovens colaboradores de Wiener pareciam finalmente estabilizar suas trajetórias científicas.

  • Suas tarefas incluíam preparar resumos de artigos para publicação e auxiliar em experimentos de neurofisiologia animal.
  • O relacionamento afetivo com um estudante de medicina surgiu por intermédio da filha de McCulloch.
  • Pitts e Selfridge retomavam de maneira produtiva os projetos atribuídos por Wiener e Rosenblueth.
  • Lettvin iniciava estudos avançados de matemática no MIT e pesquisas experimentais próprias em neurofisiologia.
  • Essa fase de aparente estabilidade foi abruptamente interrompida em abril de 1947 por uma crise capaz de ameaçar toda a rede de colaboração.

35. A notícia de que Wiener estava furioso e pretendia romper relações com Pitts, Selfridge, Lettvin, McCulloch e seus projetos conjuntos espalhou-se pelo grupo sem que inicialmente se soubesse a causa.

  • As suspeitas concentraram-se equivocadamente em Barbara.
  • Sua primeira relação amorosa já terminara, e uma segunda relação criara tensões com pessoas próximas de McCulloch.
  • O grupo receava que Wiener e Margaret os responsabilizassem pelo comportamento afetivo da filha e pelo ambiente liberal em que ela estava vivendo.
  • McCulloch e Lettvin passaram a suspeitar que Barbara estivesse transmitindo à família informações negativas sobre Chicago.
  • A preocupação culminou numa confrontação direta com a jovem dentro da casa de McCulloch.

36. Barbara foi inesperadamente tratada como responsável por uma grave ruptura que ela própria não compreendia.

  • McCulloch e Lettvin entraram em casa visivelmente exaltados e acusaram-na de ter enviado ao pai uma carta contendo denúncias contra o grupo.
  • Nenhum deles explicou de maneira clara qual seria o conteúdo dessas acusações.
  • Barbara negou ter escrito qualquer mensagem desse gênero.
  • As negativas não foram aceitas.
  • Na manhã seguinte perdeu simultaneamente o trabalho, a hospedagem e a comunicação com as pessoas que até então considerara seus amigos.

37. Poucos dias depois, revelou-se que a ira de Wiener não tinha relação alguma com Barbara, mas com um manuscrito científico entregue a Pitts para revisão e desaparecido havia meses.

  • Pitts negligenciara o texto durante suas viagens.
  • Quando Wiener finalmente recuperou o manuscrito, considerava já ter perdido prioridade científica sobre parte importante do trabalho.
  • O artigo apresentaria a primeira formulação técnica sistemática de suas novas teorias de comunicação e informação.
  • Caso tivesse sido publicado sem o atraso, Wiener poderia ter consolidado sua posição como principal formulador do campo antes mesmo de Cibernética.
  • A publicação também teria precedido em aproximadamente um ano o trabalho de Claude Shannon sobre teoria da informação.

38. Wiener interpretou inicialmente o desaparecimento do manuscrito como resultado de uma “conspiração de silêncio” envolvendo Pitts, McCulloch e os demais jovens colaboradores.

  • Em carta a McCulloch, ameaçou romper os projetos científicos conjuntos.
  • Chegou a anunciar que se retiraria completamente das conferências Macy.
  • Posteriormente ficou claro que não existira conspiração, mas apenas negligência de Pitts.
  • Depois de algumas trocas de correspondência, Wiener reconheceu o erro e pediu desculpas a McCulloch.
  • Ainda assim, responsabilizou coletivamente os jovens e procurou separar Pitts da influência de Lettvin e Selfridge.
  • Proibiu explicitamente que os três, ou mesmo dois deles, se reunissem no México durante o período de trabalho de Pitts.

39. Lettvin assumiu voluntariamente uma parcela de culpa que pertencia essencialmente a Pitts por temer que as consequências da ruptura fossem particularmente graves para o jovem matemático.

  • Ao oferecer-se como responsável, tornou-se temporariamente alvo da desaprovação de Wiener.
  • A estratégia procurava proteger Pitts, ainda emocionalmente vulnerável e cientificamente dependente do apoio de Wiener.

40. A primeira grande crise foi superada, mas produziu consequências duradouras sobre todos os envolvidos.

  • Lettvin deixou o MIT pouco depois e passou a trabalhar num hospital psiquiátrico estadual em Illinois.
  • Pitts retornou ao México com Selfridge e passou finalmente a colaborar produtivamente com Wiener e Rosenblueth.
  • Dessa permanência resultou o único artigo escrito conjuntamente por Wiener e Pitts, dedicado à transmissão de sinais em fibras nervosas.
  • Selfridge solucionou um problema matemático que havia resistido tanto a Wiener quanto a Pitts e publicou seu primeiro artigo.
  • Apesar dos resultados científicos, as relações pessoais permaneceram deterioradas.
  • Selfridge abandonou o MIT no ano seguinte sem concluir o doutorado.
  • Barbara regressou a Boston emocionalmente abalada e sem que ninguém a absolvesse explicitamente da responsabilidade que lhe fora injustamente atribuída.

41. A breve permanência de Barbara em Chicago, embora aparentemente encerrada, tornar-se-ia alguns anos depois o elemento desencadeador de uma ruptura ainda mais grave no círculo da cibernética, circunstância então desconhecida por ela e pelos demais envolvidos.

42. A redação de Cibernética agravou definitivamente os problemas visuais de Wiener e tornou necessárias cirurgia, novas formas de assistência e adaptações pessoais diante da possibilidade de cegueira.

  • Depois da operação de catarata, Margaret e as filhas passaram a ler em voz alta para ele durante a recuperação.
  • A partir de então, Margaret e suas secretárias assumiram papel maior na produção escrita, recebendo ditados e, em alguns casos, redigindo correspondências.
  • Wiener temia perder completamente a visão e começou a preparar-se praticando deslocamentos sem utilizá-la.
  • Caminhava pelos corredores do MIT com o rosto enterrado num livro e guiava-se pelo contato dos dedos com a parede.
  • Quando encontrava uma porta aberta, entrava na sala e contornava seu interior diante dos estudantes perplexos.
  • Anos depois, esse comportamento inspirou analogamente um pequeno robô móvel dotado de sensor luminoso que seguia corredores e entrava automaticamente em salas mais iluminadas.
  • Wiener apelidou a máquina de “frequentador automático de bares”.

43. Em 1948, Wiener reconstituiu no ambiente do MIT os antigos seminários interdisciplinares de Rosenblueth mediante encontros semanais num restaurante chinês próximo ao campus.

  • Os jantares reuniam uma geração mais jovem de cientistas e engenheiros em torno de problemas de comunicação e controle.
  • A diversidade inicial das linguagens disciplinares produzia uma sensação comparável à Torre de Babel.
  • Gradualmente, os participantes aprenderam a compreender o vocabulário uns dos outros.
  • Cada encontro passou a ser conduzido por um pesquisador que apresentava brevemente seu trabalho.
  • Wiener complementava as apresentações com comentários que enquadravam os problemas numa perspectiva mais ampla.
  • A convivência levou os participantes não apenas a compreender, mas progressivamente a aceitar sua visão da comunicação como princípio universal.

44. Wiener mantinha paralelamente uma intensa sociabilidade intelectual em casa, recebendo pesquisadores de grande prestígio tanto em Belmont quanto na residência de verão em South Tamworth.

  • Os espaços amplos das casas familiares acomodavam simultaneamente seus diferentes estados de espírito e os visitantes.
  • Entre eles esteve J. B. S. Haldane, um dos mais controversos biólogos britânicos.
  • Embora Haldane fosse conhecido também por suas posições comunistas, as divergências políticas não constituíam obstáculo relevante para Wiener.
  • A afinidade entre ambos repousava sobretudo em valores científicos profundos e numa formação erudita enraizada em antigas tradições intelectuais.

45. Wiener e Haldane expressavam essa afinidade erudita inclusive por meio do canto conjunto de De contemptu mundi, hino medieval latino de Bernardo de Cluny, após as refeições familiares.

46. O canto evocava a imagem da Jerusalém dourada e de uma pátria ideal abundantemente abençoada, associando a convivência dos dois cientistas seculares a uma tradição espiritual medieval preservada como herança cultural.

47. A continuação da composição celebrava Jerusalém como cidade dourada e espaço simbólico de plenitude, permanecendo viva na memória dos dois estudiosos apesar de suas posições religiosas não ortodoxas.

48. O hino avançava finalmente para uma advertência sombria sobre a corrupção do mundo, a proximidade do fim e a necessidade de vigilância diante de um julgamento iminente.

49. A imagem do mundo em decadência e da necessidade de permanecer vigilante seria posteriormente reelaborada por Wiener em suas próprias advertências sobre os perigos sociais e morais das novas tecnologias automatizadas.

50. A volta de Yuk Wing Lee ao MIT reforçou o círculo científico de Wiener e forneceu uma ponte importante entre sua teoria matemática e suas aplicações práticas na engenharia.

  • Depois do longo período em que permanecera retido na China, Lee precisava atualizar-se sobre os avanços ocorridos na ciência e na tecnologia norte-americanas.
  • Wiener atribuiu-lhe pesquisas em problemas centrais da nascente cibernética e questões cujas soluções conceituais já havia esboçado sem desenvolver tecnicamente.
  • Lee começou a ensinar os métodos estatísticos de Wiener e os conhecimentos necessários à construção de máquinas e fábricas automatizadas.
  • Esse campo técnico excedia a experiência direta de Wiener como matemático teórico.
  • Os artigos e livros de Lee traduziram as teorias de Wiener para a linguagem prática da engenharia.
  • Ele tornou-se assim intérprete da cibernética perante engenheiros e intermediário junto às empresas que Wiener deliberadamente evitava.

51. O reconhecimento obtido com Cibernética trouxe satisfação a Wiener, mas não eliminou as inseguranças profundamente enraizadas nem as oscilações emocionais que continuavam a marcar sua vida.

  • Peggy considerava que a recepção extraordinária do livro proporcionara ao pai o primeiro sentimento duradouro de receber o reconhecimento que julgava merecer.
  • O sucesso, entretanto, não reduziu de modo proporcional as pressões sobre ele e a família.
  • A celebridade acrescentou distrações, obrigações públicas e um sentimento crescente de responsabilidade pelas consequências da nova ciência.
  • Uma visita da revista Life exemplificou a mudança: enquanto Alfred Eisenstaedt fotografava Wiener jogando xadrez com Peggy, a mente do cientista estava tão ocupada com outras preocupações que a filha, apesar de se considerar uma jogadora fraca, conseguiu vencê-lo em apenas três movimentos.

52. Margaret apropriava-se parcialmente da fama do marido como compensação pelas renúncias que julgava ter realizado, enquanto as filhas experimentavam o peso dessa notoriedade de maneira muito mais ambivalente.

  • A posição de “esposa de professor” fazia com que Margaret interpretasse o prestígio científico de Wiener também como realização pessoal.
  • Para Barbara e Peggy, ser filha de uma celebridade intelectual agravava dificuldades já presentes desde a infância.
  • Peggy expressava o desejo de possuir identidade própria, separada da condição pública de “filha de Norbert Wiener”.
  • Wiener reconhecia esse sofrimento e admitia que, mesmo sem tentar moldar as filhas à própria imagem, sua personalidade e posição social submetiam-nas inevitavelmente a pressões que independiam de sua intenção consciente.

53. As oscilações emocionais de Wiener continuavam capazes de destruir abruptamente a autoconfiança proporcionada pelo sucesso e levá-lo a ataques contra colegas, concorrentes e discípulos.

  • Muitos membros do MIT interpretavam essas explosões como maldade ou arbitrariedade.
  • Entretanto, os episódios estavam ligados a forças emocionais internas e frequentemente eram desencadeados por acontecimentos concretos.
  • A crise do manuscrito perdido exemplificava a combinação entre um motivo real de indignação e uma reação desproporcional intensificada por seu estado psíquico.

54. Peggy insistia que o pai não agia movido por malícia, embora pudesse confrontar duramente outras pessoas quando acreditava possuir motivos legítimos.

  • Wiener preferia acusações diretas ao comentário depreciativo feito pelas costas.
  • Sua extraordinária riqueza vocabular transformava as explosões em longos discursos elaborados num inglês de estilo vitoriano.
  • Barbara conseguia perceber simultaneamente o sofrimento causado por essas cenas e sua extraordinária força verbal.
  • Nos períodos de euforia, Wiener transmitia aos colaboradores uma sensação coletiva de possibilidade e poder intelectual.
  • Nas quedas depressivas, porém, aqueles cuja confiança pessoal dependia parcialmente de sua aprovação também podiam sentir-se ameaçados e inseguros.

55. Os períodos de grande vitalidade intelectual alternavam-se com dias sombrios nos quais Wiener procurava dirigentes do MIT para protestar contra acontecimentos científicos, administrativos ou políticos que o alarmavam.

  • Presidentes, reitores e chefes de departamento acostumaram-se a recebê-lo sem aviso.
  • Uma contestação científica podia desencadear a crise.
  • Decisões governamentais também podiam convencê-lo de que o mundo estava sendo conduzido à destruição.
  • Sua instabilidade pessoal era, portanto, continuamente alimentada tanto por conflitos próximos quanto por preocupações globais.

56. Nos períodos depressivos, Wiener enviava repetidamente cartas exaltadas de renúncia ao MIT ou a organizações profissionais.

  • O Departamento de Matemática recebia a maior parte dessas manifestações por estar institucionalmente mais próximo.
  • Um observador estimava que Wiener tivesse renunciado ao departamento aproximadamente cinquenta vezes.
  • Administradores e colegas aprenderam a reconhecer o padrão e mobilizavam-se imediatamente para apoiá-lo e impedir decisões irreversíveis.

57. Algumas organizações compreenderam e absorveram o caráter recorrente dessas renúncias, mas a Academia Nacional de Ciências aceitou definitivamente sua saída.

  • McCulloch conseguira preservar as conferências Macy em mais de uma ocasião depois de ameaças de retirada.
  • Wiener, entretanto, renunciou à Academia Nacional de Ciências, da qual era membro desde a década de 1930.
  • Criticava a instituição como organismo autorreprodutor e irresponsável.
  • A causa principal estava nos procedimentos políticos envolvidos na concessão de medalhas e prêmios, críticas que investigações posteriores parcialmente confirmariam.
  • A carta de renúncia também incluía reclamações contra a comida, os jantares caros e tediosos e a atmosfera de pompa das reuniões.
  • Como a Academia não tentou fazê-lo reconsiderar, Wiener nunca mais se associou formalmente a outra sociedade científica.

58. As renúncias de Wiener eram recebidas com hostilidade, perplexidade ou humor conforme o observador, e combinavam motivações éticas reais com efeitos de seus estados depressivos.

  • Algumas decisões fundamentavam-se em críticas morais legítimas às instituições.
  • Outras pareciam produtos diretos das oscilações emocionais.
  • Ao final da década de 1940, pessoas próximas reconheceram também uma correlação geográfica e doméstica significativa.
  • Fora de Massachusetts, Wiener costumava apresentar-se alegre, sociável e emocionalmente estável.
  • Durante ausências prolongadas de Margaret, aparentemente não sofria episódios depressivos.

59. Pessoas próximas à família consideravam que Margaret frequentemente agravava as oscilações emocionais do marido e podia até desencadear deliberadamente algumas crises profissionais.

  • Tobey Raisbeck percebia que a convivência com a esposa desestabilizava Wiener.
  • Lettvin interpretava determinadas intervenções de Margaret como estímulos diretos às explosões.
  • Um convite modesto de estudantes do Instituto Politécnico de Worcester inicialmente deixou Wiener contente e disposto a oferecer uma conferência gratuitamente.
  • Margaret reinterpretou o gesto como humilhação profissional, sugerindo que falar sem pagamento numa instituição pequena significava aceitar que seu trabalho não possuía valor.
  • Wiener reagiu enviando uma carta agressiva que rompeu relações com a instituição, deixando os estudantes sem compreender a causa da mudança.

60. Tornara-se perceptível que Margaret considerava Wiener mais administrável e socialmente respeitável quando deprimido do que quando eufórico e, consciente ou inconscientemente, procurava interromper seus estados de entusiasmo.

  • Sua própria experiência doméstica levara-a a identificar a expansão emocional do marido com risco de comportamento inconveniente.
  • Derrubar sua euforia podia parecer-lhe uma forma de protegê-lo e preservar sua dignidade pública.
  • Os observadores do círculo científico perceberam ainda uma consequência particularmente grave desse mecanismo.
  • Decisões tomadas por Wiener durante períodos depressivos tendiam a permanecer válidas para ele mesmo depois de recuperar-se, atribuindo permanência institucional a juízos formulados em momentos de desequilíbrio.

61. As oscilações de Wiener podiam levá-lo de períodos prolongados de autodepreciação à recuperação súbita da atividade e da confiança.

  • Nos momentos baixos, repetia que não prestava ou recorria à expressão alemã “Ich bin müde”, afirmando estar cansado.
  • Depois podia retornar à ação declarando simplesmente que estava fazendo o melhor que podia.
  • Não transformava deliberadamente sua condição emocional em espetáculo e demonstrava certo constrangimento diante dela.
  • Chegava a avisar amigos próximos quando percebia a aproximação de uma fase depressiva.
  • Nessas circunstâncias, os colaboradores aprendiam a evitá-lo para não se tornarem alvos involuntários de suas reações.

62. Diante da insuficiência do apoio doméstico e do medo persistente de sofrer um colapso maior, Wiener voltou a procurar tratamento psiquiátrico.

  • Durante viagens a Nova York, consultava discretamente Janet Rioch.
  • A terapeuta oferecia um espaço em que podia expressar as emoções acumuladas sem o formalismo de experiências psicanalíticas anteriores.
  • Wiener valorizava o fato de Rioch não interpretar mecanicamente os sonhos nem transformar o divã num ritual obrigatório.
  • O aspecto decisivo era a tentativa de estabelecer relação direta com ele enquanto pessoa, abordagem que Wiener considerava muito mais adequada às próprias necessidades.

63. À medida que as filhas conquistavam gradualmente independência, Margaret intensificava seus esforços para manter controlado o ambiente social e profissional em torno do marido.

  • Depois da experiência traumática em Chicago, Barbara deixou o MIT e transferiu-se para a Universidade de Boston.
  • Peggy ingressou em Tufts, repetindo parcialmente o percurso educacional do pai.
  • O crescimento das exigências públicas e profissionais sobre Wiener ultrapassava progressivamente a capacidade de Margaret de garantir a estabilidade que desejava.
  • Em resposta, aumentava sua tendência a controlar não apenas o marido, mas também pessoas que percebia como ameaças potenciais à sua posição no MIT.

64. A obsessão de Margaret por orelhas furadas produziu consequências profissionais concretas para Margot Zemurray, secretária do Departamento de Matemática.

  • Margot datilografara grande parte da correspondência de Wiener depois da publicação de Cibernética e arquivava inclusive suas numerosas cartas de renúncia.
  • Ao ficar noiva, decidiu furar as orelhas para o casamento.
  • Não houve qualquer indicação de reação inadequada por parte de Wiener.
  • A notícia, entretanto, desencadeou uma intervenção direta de Margaret no departamento.

65. Margaret compareceu pessoalmente ao Departamento de Matemática e exigiu a demissão imediata da secretária por ter furado as orelhas.

  • A administração cedeu à exigência naquele momento.
  • Margot perdeu o emprego sem compreender a verdadeira razão.
  • O próprio Wiener aparentemente não sabia por que sua secretária fora demitida.
  • O episódio transformou uma obsessão privada de Margaret numa intervenção concreta e danosa sobre a vida profissional de outra pessoa.

66. A conduta controladora de Margaret assumia progressivamente uma intensidade que não podia ser explicada apenas pelas dificuldades reais de conviver com Wiener e continuava a transformar Barbara em alvo privilegiado de seus temores.

  • O medo de que a filha revelasse segredos familiares permanecia ativo mesmo depois das crises anteriores.
  • Quando a amizade de Barbara com o primo distante Tobey Raisbeck começou a transformar-se em namoro, Margaret percebeu novamente uma ameaça à circulação de informações sobre a família dentro do ambiente do MIT.
  • Decidiu, então, intervir diretamente para impedir o relacionamento.

67. Margaret convidou Raisbeck formalmente para uma conversa particular e apresentou uma série de acusações graves contra a própria filha com o objetivo de afastá-lo.

  • Afirmou primeiro que Barbara seria uma mentirosa patológica, caracterização incompatível com a experiência pessoal de Raisbeck.
  • Em seguida declarou que a filha seria uma alcoólatra incontrolável, embora Raisbeck soubesse por experiência direta que Barbara tolerava muito mal o álcool.
  • Por fim, caracterizou-a como ninfomaníaca promíscua.
  • Nenhuma das acusações correspondia ao comportamento que Raisbeck havia observado.
  • A estratégia revelava até que ponto Margaret estava disposta a comprometer a reputação da filha para preservar o controle sobre a vida familiar.

68. Raisbeck recusou-se a aceitar as advertências de Margaret e aprofundou a relação com Barbara, enquanto Wiener recebeu com entusiasmo paternal a perspectiva de casamento.

  • O pai acompanhava ansiosamente a evolução do namoro.
  • Perguntava repetidamente à filha se Raisbeck já havia feito o pedido de casamento.
  • Barbara chegou a brincar que a insistência paterna poderia dificultar justamente aquilo que ele esperava.

69. Barbara e Tobey Raisbeck casaram-se em dezembro de 1948 e mudaram-se para Nova Jersey, iniciando uma vida distante das pressões familiares que ambos desejavam deixar para trás.

  • Raisbeck já possuía formação em engenharia elétrica, uma bolsa Rhodes e experiência de serviço na Marinha.
  • Iniciou sua carreira profissional nos Laboratórios Bell.
  • O afastamento geográfico ofereceu ao casal uma possibilidade concreta de construir vida própria fora das tensões acumuladas no círculo dos Wiener.

70. No final de 1950, Wiener voltou à França a convite de Szolem Mandelbrojt para lecionar no Collège de France e participar de um congresso internacional sobre computadores e automação.

  • Viajou sozinho em dezembro com financiamento de uma bolsa Fulbright.
  • Passou algumas semanas em Paris preparando suas aulas e a participação no congresso.
  • Depois seguiu brevemente para a Inglaterra para visitar Haldane.
  • Margaret e Peggy viajaram posteriormente para encontrá-lo.
  • Wiener organizara para Peggy, então estudante de bioquímica em Tufts, um período de trabalho no laboratório de genética de Haldane no University College de Londres.
  • O arranjo reproduzia, em condições diferentes, a tentativa anterior de oferecer a Barbara experiência científica sob orientação de um amigo próximo.
  • Wiener e Margaret retornaram a Paris, enquanto Peggy permaneceu inicialmente em Londres.
  • Poucas semanas depois, quando a filha visitou Paris, novo conflito com a mãe ocorreu imediatamente após sua chegada ao aeroporto.

71. Margaret interpretou novamente uma situação inteiramente cotidiana como evidência de comportamento sexual impróprio da filha.

  • Durante o voo, Peggy sofrera intensa pressão nos ouvidos e um passageiro sentado ao lado demonstrara preocupação.
  • Ao desembarcar, o homem continuava atento ao seu estado.
  • Sem qualquer explicação prévia, Margaret acusou a filha de ter procurado seduzi-lo.
  • Peggy ficou perplexa com a conclusão, que lhe parecia completamente desconectada da situação.
  • Anos depois, continuava associando episódios desse tipo à extrema dificuldade materna diante de qualquer tema sexual.
  • Reconhecia que a geração de Margaret fora culturalmente mais repressiva, mas considerava que nela essa disposição assumira proporções excepcionais.

72. Enquanto permanecia alheio à nova acusação de Margaret contra Peggy, Wiener desfrutava Paris em companhia de amigos franceses, frequentando cafés, jogando xadrez e descobrindo restaurantes.

  • Szolem Mandelbrojt encarregou o sobrinho Benoît Mandelbrot de apresentar-lhe alguns dos melhores bistrôs parisienses.
  • O jovem matemático polonês-francês, posteriormente associado ao desenvolvimento da geometria fractal, conhecia Wiener por reputação desde a adolescência e o considerava um modelo intelectual.
  • O encontro proporcionou-lhe uma impressão direta da aparência singular e dos hábitos pouco convencionais do célebre matemático.

73. Benoît Mandelbrot recordou um jantar em que a aparência de Wiener fez o restaurante esperar dele os hábitos sofisticados de um grande gastrônomo norte-americano, expectativa imediatamente frustrada por sua miopia e seu vegetarianismo.

  • Incapaz de ler o cardápio, Wiener simplesmente pediu legumes.
  • Quando o garçom solicitou especificação, respondeu que desejava todos os legumes.
  • Mandelbrot precisou explicar que o convidado era simultaneamente vegetariano e míope e pedir uma seleção dos melhores vegetais disponíveis.
  • Wiener ficou plenamente satisfeito com o prato simples.
  • A equipe do restaurante, entretanto, permaneceu desconcertada porque o visitante que parecia um importante gourmet recusara qualquer refeição elaborada.
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