Ruptura
CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Dark hero of the information age: in search of Norbert Wiener, the father of cybernetics. New York: Basic books, 2005.
** Ruptura e traição **
1. A acusação de fraqueza de propósito e a decisão de fabricar indícios capazes de transferir a culpa a terceiros introduzem, pela passagem de Macbeth, o motivo da manipulação deliberada das aparências que atravessa os acontecimentos subsequentes. — William Shakespeare, Macbeth
2. Do final da década de 1940 ao início da década de 1950, a cibernética expandiu-se continuamente pela indústria, pela tecnologia e pela imaginação pública, enquanto as obras de Wiener alcançavam crescente circulação internacional e multiplicavam-se os convites para conferências e períodos de docência no exterior.
3. Na primavera de 1951, depois de concluir suas aulas sobre cibernética em Paris, Wiener seguiu com Margaret para Madri, onde fora convidado a falar para matemáticos e engenheiros espanhóis.
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Antes de aceitar o convite, advertira os anfitriões de que suas posições poderiam desagradar às autoridades da Espanha franquista, então a única ditadura da Europa ocidental sobrevivente ao pós-guerra.
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Ao chegar, soube que suas ideias haviam efetivamente sido consideradas perigosamente liberais.
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Embora estivesse preparado para discursar em espanhol, recebeu ordem de utilizar o francês.
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A imposição pretendia limitar a compreensão de suas posições pelo público espanhol e reduzir seu alcance político.
4. Depois da permanência restritiva na Espanha, Wiener retornou à França e concentrou-se na redação do primeiro volume de sua autobiografia, dedicado à infância como prodígio e aos primeiros anos da vida adulta.
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O crescimento da reputação internacional proporcionado pela cibernética convenceu-o de que sua trajetória pessoal adquirira interesse público.
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O relato destinava-se tanto aos seguidores de sua nova ciência quanto aos leitores interessados no destino psicológico e intelectual das crianças prodígios.
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A autobiografia representava, assim, simultaneamente um projeto de memória pessoal e uma reflexão sobre a formação de uma inteligência excepcional.
5. Wiener ditou grande parte das memórias a Margaret durante viagens pela França, mas a reconstituição da infância submetida à pressão paterna provocou intenso sofrimento emocional.
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O trabalho avançou em Saint-Jean-de-Luz, em Paris e numa região montanhosa da Savoia próxima ao lago de Genebra.
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Seu psiquiatra recomendara a reconstrução autobiográfica como possível instrumento terapêutico.
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Na prática, o retorno prolongado às experiências da infância produziu efeito contrário e reabriu conflitos ainda não elaborados.
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O excesso simultâneo de conferências, viagens e escrita culminou numa crise física e emocional.
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Ao final do período europeu, Wiener precisou ser hospitalizado na Suíça depois de uma forte dor de cabeça associada à exaustão.
6. A descrição posterior desse episódio como simples dor de cabeça provavelmente atenuava a gravidade de uma crise depressiva mais profunda.
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Mesmo depois da alta, o deslocamento até Gênova revelou-se fisicamente desgastante.
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Ao embarcar para os Estados Unidos, Wiener precisou permanecer sob acompanhamento do médico do navio.
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O tratamento iniciado em terra continuou durante a travessia.
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Ao chegar em casa, descreveu-se como razoavelmente recuperado, porém completamente exausto, expressão que costumava utilizar para designar períodos de depressão grave ou recuperação imediatamente posterior.
7. Pouco depois de regressar a Boston, Wiener partiu novamente para a Cidade do México, onde recebeu um título honorífico durante as celebrações dos quatrocentos anos da Universidade do México.
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Duas semanas de cerimônias, festividades e compromissos acadêmicos proporcionaram satisfação, mas também renovaram seu esgotamento.
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Esse desgaste antecedeu uma crise pessoal e científica de magnitude muito maior.
8. A rápida expansão da cibernética tornara impossível que Wiener sozinho respondesse à crescente demanda por formação, interpretação e divulgação do novo campo, enquanto Warren McCulloch se consolidava como um de seus principais propagadores.
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Como fundador e presidente das conferências Macy, McCulloch dominava progressivamente os princípios e perspectivas cibernéticos.
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Difundia as ideias de Wiener na neurofisiologia e em outras ciências com entusiasmo comparável ao do próprio criador da cibernética.
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Viajava intensamente pelos Estados Unidos e pelo exterior para divulgar a nova abordagem.
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No início de 1951, Wiener apoiou diretamente a ampliação dessa atuação de McCulloch.
9. Antes de partir para o período sabático na Europa e no México, Wiener apoiou a iniciativa de Jerome Wiesner de convidar McCulloch para dirigir no MIT um importante programa de pesquisa sobre cérebro e cibernética.
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Wiesner já ocupava posição de liderança no antigo laboratório de radar.
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McCulloch aceitou abandonar uma cátedra plena e suas vantagens na Universidade de Illinois.
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Em troca, assumiu no MIT a posição formalmente mais modesta de pesquisador associado.
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A decisão revelava a importância atribuída por McCulloch à oportunidade de participar do novo ambiente interdisciplinar.
10. O antigo laboratório militar de radar transformava-se rapidamente num centro amplo de pesquisa sobre comunicação sob a direção de Jerome Wiesner.
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Em 1946, o laboratório secreto da guerra fora reorganizado como Research Laboratory of Electronics, embora continuasse conhecido pela antiga abreviação RLE.
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Em 1951, seus grandes projetos militares de radar foram transferidos para o recém-criado Laboratório Lincoln.
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Wiesner assumiu então a direção do RLE e ampliou sua missão para abranger teoria e pesquisa da comunicação em sentido amplo.
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Novos laboratórios passaram a investigar componentes humanos da comunicação juntamente com sistemas eletrônicos.
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Pesquisas interdisciplinares concentraram-se em fala, audição e linguagem.
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Desenvolveram-se próteses eletrônicas destinadas a pessoas com dificuldades auditivas ou de fala.
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O laboratório de linguagem atrairia posteriormente Roman Jakobson, Morris Halle e Noam Chomsky.
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Entre os projetos pioneiros figurava ainda a tradução automática, concebida simultaneamente como problema científico e instrumento potencial para a diplomacia e a inteligência norte-americanas durante a Guerra Fria.
11. A criação de um laboratório de primeira linha para pesquisa cerebral constituía prioridade central para Wiesner, e McCulloch parecia a escolha natural para dirigi-lo.
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Durante a ausência de Wiener, Wiesner organizou a instalação do grupo no Edifício 20, antiga construção provisória do período de guerra que permaneceria durante décadas como sede do RLE.
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Jerry Lettvin foi recrutado de volta ao MIT depois de consolidar-se como neurofisiologista em Illinois e reconciliar-se anteriormente com Wiener.
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Patrick Wall, neurofisiologista britânico formado em instituições como Oxford, Yale e Universidade de Chicago, também integrou a equipe.
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Oliver Selfridge retornou ao MIT depois de servir no Corpo de Sinais do Exército.
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Selfridge instalou-se no Laboratório Lincoln para desenvolver programas para o computador digital Whirlwind, mas manteve vínculos estreitos com McCulloch, Lettvin e o grupo do RLE.
12. Walter Pitts já permanecia no MIT, mas continuava sem concluir a tese de doutorado, e Wiener esperava que a presença de McCulloch e a energia de um novo laboratório de neurofisiologia oferecessem a disciplina necessária para finalizar sua teoria das redes neurais aleatórias.
13. O laboratório pretendia concretizar uma ciência ainda em formação na qual a obra de Wiener ocuparia posição conceitual decisiva.
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Wiener deveria atuar como interlocutor crítico capaz de testar e aperfeiçoar as hipóteses da equipe.
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O cérebro era concebido fundamentalmente como um extraordinário sistema de comunicação.
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A matemática da cibernética e do controle forneceria parte de sua base teórica.
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A investigação geral da comunicação forneceria o outro grande eixo conceitual.
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A união pretendida entre neurofisiologia e teoria matemática correspondia diretamente ao programa intelectual construído nas conferências Macy.
14. Wiener compartilhava com McCulloch e seus colaboradores um objetivo filosófico mais amplo: compreender as operações cognitivas superiores do cérebro em termos de informação e comunicação.
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Os métodos deveriam reunir instrumentos experimentais modernos e tecnologias eletrônicas recentes.
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O interesse concentrava-se na relação entre acontecimentos celulares e processos mentais.
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A própria designação informal “Epistemologia Experimental”, colocada na porta do laboratório, exprimia a ambição de investigar experimentalmente as condições físicas do conhecimento.
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A epistemologia deixava assim de ser apenas questão filosófica abstrata e tornava-se também programa neurocientífico.
15. Nenhum campo de investigação era considerado demasiado distante no ambiente radicalmente interdisciplinar do RLE, onde Wiener funcionava como principal referência intelectual.
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Grande parte das pesquisas inspirava-se em suas concepções sobre comunicação e feedback em homens e máquinas.
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Wiener circulava diariamente pelos laboratórios interrogando pesquisadores e apresentando ideias recém-formuladas.
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Para alguns, sua presença era indispensável; para outros, podia ser cansativa e invasiva.
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Muitas de suas próprias pesquisas do pós-guerra desenvolveram-se em colaboração com os jovens engenheiros e cientistas instalados no Edifício 20.
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O espaço tornava-se uma materialização institucional do estilo interdisciplinar que Wiener perseguira durante décadas.
16. A concentração de Wiener, McCulloch, Pitts, Lettvin, Wall, Selfridge e eventualmente Rosenblueth no mesmo ambiente parecia finalmente realizar o antigo projeto de criar no MIT um centro interdisciplinar dedicado às dimensões técnicas e biológicas da cibernética.
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A capacidade matemática e a visão abrangente de Wiener poderiam combinar-se com a neurofisiologia e a filosofia da mente de McCulloch.
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Pitts acrescentaria sua extraordinária habilidade para formalizar matematicamente redes neurais.
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Esperava-se uma sequência de experimentos inovadores sobre percepção, cognição e inteligência.
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Descobertas biológicas deveriam retroalimentar o desenvolvimento de computadores e outras tecnologias de comunicação.
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Wiener atribuía prioridade particular à criação de próteses e dispositivos eletrônicos voltados ao benefício humano.
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A equipe Wiener-McCulloch-Pitts parecia destinada a tornar-se a vanguarda científica da revolução cibernética e um verdadeiro núcleo intelectual das novas ciências da comunicação.
17. Antes que essa colaboração pudesse amadurecer, porém, Wiener rompeu abruptamente no final de 1951 com McCulloch e com praticamente todos os integrantes mais próximos do grupo.
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A ruptura atingiu Pitts, Lettvin e Selfridge.
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Até Jerome Wiesner foi incluído no afastamento.
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A separação tornou-se definitiva, ao contrário do conflito temporário ocorrido em 1947.
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Suas consequências alterariam o desenvolvimento da cibernética e da nascente era da informação.
18. As causas da ruptura Wiener-McCulloch permaneceram durante anos obscuras inclusive para as pessoas diretamente atingidas por ela.
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Cientistas do MIT e membros do círculo cibernético formularam numerosas hipóteses para explicar por que Wiener abandonaria uma amizade de dez anos.
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A perplexidade aumentava porque McCulloch fora, depois do próprio Wiener, um dos maiores divulgadores da cibernética.
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Igualmente incompreensível parecia a decisão de destruir uma colaboração institucional prestes a realizar um antigo sonho científico.
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Diferentes versões circularam nas conferências Macy e na historiografia posterior sem esclarecer imediatamente a motivação real.
19. Os principais relatos históricos inicialmente reduziram ou obscureceram a natureza do conflito.
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Pesi Masani tratou a ruptura como exacerbação de uma disputa insignificante.
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Lettvin referiu-se décadas depois a um mal-entendido pessoal manipulado pela família Wiener até transformar-se numa ruptura violenta.
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Nenhuma dessas descrições tornava pública a sequência completa dos acontecimentos.
20. A reconstrução posterior revelaria uma situação muito mais grave e complexa que as conjecturas inicialmente formuladas.
21. No outono de 1951, Wiener encontrava-se emocionalmente fragilizado enquanto tentava concluir sua autobiografia no México.
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Morris Chafetz, jovem psiquiatra que o encontrou na Cidade do México, testemunhou diretamente essa vulnerabilidade.
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Durante um almoço, Wiener passou grande parte do tempo chorando.
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Procurava no interlocutor psiquiatra alguém com quem pudesse elaborar os sentimentos reativados pela reconstrução literária de sua relação com o pai.
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A escrita autobiográfica transformara-se numa experiência emocionalmente desorganizadora.
22. Wiener concluiu naquele outono o manuscrito autobiográfico intitulado modestamente “O galho torto”, mas enfrentou uma sucessão de rejeições editoriais que agravou seu estado emocional.
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O livro continha revelações íntimas e críticas severas à mãe, a antigos mentores e a colegas.
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Alguns leitores consideraram-no constrangedor para Wiener e potencialmente difamatório para as pessoas mencionadas.
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Editoras norte-americanas e britânicas recusaram o manuscrito por diferentes razões.
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A Houghton Mifflin, que publicara O uso humano dos seres humanos, rejeitou-o.
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Editoras britânicas alegaram falta de entusiasmo e interesse excessivamente norte-americano.
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Em novembro, já profundamente afetado pelas negativas, Wiener procurou a Technology Press do MIT em busca de aconselhamento e talvez de uma proposta de publicação.
23. Nesse estado emocional, Wiener recebeu uma carta entusiasmada de Pitts e Lettvin descrevendo as extraordinárias possibilidades do novo laboratório do RLE.
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A correspondência destinava-se simultaneamente a Wiener e Rosenblueth.
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Os jovens celebravam a instalação de equipamentos avançados e as condições favoráveis à pesquisa.
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O tom imitava humoristicamente a linguagem medieval cultivada no círculo de McCulloch.
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A brincadeira pressupunha intimidade, camaradagem e continuidade da antiga relação.
24. Pitts e Lettvin saudaram Wiener e Rosenblueth em linguagem cerimoniosa e jocosa, apresentando o novo laboratório como território quase encantado no qual todos os recursos experimentais desejáveis apareciam prontamente.
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Enumeravam pré-amplificadores, câmeras, estimuladores, sincronizadores e osciloscópios.
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O exagero humorístico expressava sobretudo entusiasmo pela infraestrutura científica disponível.
25. A carta prosseguia descrevendo detalhadamente os experimentos neurofisiológicos planejados e convidava Rosenblueth a unir-se ao grupo em Cambridge.
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Protocolos, configurações instrumentais, hipóteses e resultados esperados eram apresentados com precisão.
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Os jovens ressaltavam que qualquer equipamento necessário poderia ser comprado ou construído rapidamente graças aos recursos do MIT.
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Destacavam a combinação de instrumentos analógicos e o acesso ao computador digital Whirlwind.
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A abundância de assistentes reforçava as possibilidades experimentais.
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Em tom de brincadeira, ameaçavam “roubar” Wiener de Rosenblueth caso este permanecesse no México.
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Problemas relacionados ao cálculo da informação em padrões aleatórios eram apresentados como tentações intelectuais às quais Wiener dificilmente resistiria.
26. A carta encerrava-se mantendo a linguagem paródica de submissão medieval e assinando Pitts e Lettvin como humildes e obedientes servidores dos dois cientistas mais velhos.
27. Wiener recebeu a brincadeira no pior momento emocional possível e interpretou-a como afronta, reagindo imediatamente com ruptura total.
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Enviou a Jerome Wiesner um telegrama qualificando a carta como impertinente.
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Declarou permanentemente abolida qualquer ligação entre ele e os projetos do grupo.
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Pitts e Lettvin passaram a ser apresentados como problema exclusivo de Wiesner.
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Nenhum dos envolvidos recebeu oportunidade de explicar o sentido da carta ou responder antes que a decisão fosse anunciada.
28. A intensidade da reação coincidiu diretamente com uma nova e particularmente dolorosa rejeição editorial recebida por Wiener no dia anterior.
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Frederick G. Fassett Jr., diretor da Technology Press, aconselhou-o explicitamente a não publicar “O galho torto”.
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Considerava que Wiener se encontrava no auge de uma carreira brilhante e que a autobiografia poderia prejudicar, em vez de favorecer, sua obra futura.
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Sugeriu guardar o manuscrito por dez ou quinze anos e posteriormente produzir memórias abrangendo toda a trajetória.
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Para Wiener, já fragilizado pelas negativas anteriores e pela carga emocional da autobiografia, o parecer constituiu um golpe devastador.
29. Wiener não dirigiu sua frustração contra Fassett, mas imediatamente contra Pitts, Lettvin, McCulloch e Wiesner.
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No mesmo dia em que enviou o telegrama de ruptura, escreveu uma extensa carta ao presidente do MIT, James R. Killian Jr.
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O conflito privado começou assim a adquirir dimensão institucional.
30. Na carta a Killian, Wiener alegou inesperadamente estar havia muito tempo preocupado com a situação da cibernética no MIT e apresentou o problema como questão grave e perigosa.
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Reafirmou sua condição de fundador da cibernética.
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Sublinhou que jamais procurara desenvolver o campo em prejuízo do MIT ou do governo norte-americano.
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Recordou sua política ética de independência em relação ao financiamento estatal depois da guerra.
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Declarou não ter aceitado dinheiro governamental para projetos de cibernética ou outras pesquisas desde o término do conflito.
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A argumentação transformava ressentimentos pessoais numa denúncia sobre princípios de organização e financiamento científico.
31. Wiener lançou então acusações severas contra McCulloch, Wiesner, Pitts e Lettvin.
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Descreveu McCulloch como figura científica pitoresca e carismática cuja capacidade de sedução ultrapassaria sua confiabilidade.
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Suspeitou que Wiesner tivesse trazido McCulloch ao MIT para captar recursos governamentais destinados à neurofisiologia.
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Acusou McCulloch de remunerar Pitts e Lettvin em níveis indevidamente elevados em projetos governamentais.
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Retomou antigas críticas à irresponsabilidade administrativa dos jovens.
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Afirmou que Pitts não cumprira adequadamente as funções pelas quais fora remunerado como assistente.
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Condenou novamente sua incapacidade de terminar a tese de doutorado.
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A demora era apresentada como falha simultânea perante o MIT e a Fundação Guggenheim.
32. A carta de Pitts e Lettvin foi utilizada por Wiener como prova da suposta arrogância e apropriação indevida de sua área científica.
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Recusava-se a aceitar que dois pesquisadores mais jovens lhe indicassem a direção de seus próprios trabalhos.
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Interpretava o entusiasmo da carta como satisfação dos jovens por terem realizado algo às suas costas.
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Ameaçou retirar seu apoio a outros projetos do MIT enquanto considerasse seu tempo e sua paciência abusados.
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Expressou o temor de que a cibernética se transformasse numa competição pela apropriação de seu campo.
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Concluiu que o ambiente existente já não lhe permitia continuar adequadamente seu trabalho cibernético.
33. A carta encerrava-se formalmente com a assinatura de Norbert Wiener, apesar do caráter intensamente acusatório e emocional de seu conteúdo.
34. Killian conhecia o padrão de explosões e ameaças de renúncia de Wiener, mas ficou surpreendido com a amplitude do ataque contra Jerome Wiesner e o novo grupo do RLE.
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Respondeu cuidadosamente depois de uma semana.
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Declarou não ter conhecimento de qualquer oposição anterior de Wiener à criação do laboratório de neurofisiologia.
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Recordou a atitude de discipulado e admiração que Wiesner demonstrava em relação a Wiener.
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Considerou difícil acreditar que Wiesner tivesse deliberadamente adotado qualquer iniciativa hostil.
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Defendeu o trabalho de McCulloch como desenvolvimento legítimo das implicações práticas dos conceitos fundamentais de Wiener.
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A própria existência do laboratório podia ser interpretada como prova da importância e validade da cibernética.
35. Killian esclareceu ainda as condições de financiamento e procurou assegurar a Wiener que os pesquisadores do RLE permaneciam profundamente comprometidos com sua liderança intelectual.
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O financiamento específico do laboratório de McCulloch provinha de uma concessão dos Laboratórios Bell, e não diretamente do governo.
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O MIT não assumira compromisso permanente com McCulloch.
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Os projetos do RLE haviam avançado sob a influência direta das concepções de Wiener.
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Killian esperava que o trabalho do grupo ampliasse ainda mais a influência de sua obra fundamental.
36. A resposta oferecia precisamente a reafirmação de reconhecimento que Wiener frequentemente necessitava em períodos de insegurança.
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Killian assegurou-lhe que ninguém poderia retirar-lhe o mérito histórico pela criação da cibernética.
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Sua posição intelectual era apresentada como suficientemente sólida para permitir uma atitude generosa em relação aos pesquisadores que exploravam extensões do campo.
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A mensagem procurava neutralizar o medo de que os colaboradores pudessem eclipsar seu papel fundador.
37. Killian concluiu afirmando que Wiener não possuía razões concretas para preocupação e que continuava contando com apoio integral dos amigos e colegas do MIT, tanto para suas pesquisas quanto para o reconhecimento de sua contribuição.
38. A correspondência terminou em tom cordial, refletindo a expectativa de Killian de que a crise pudesse ser resolvida pela reafirmação institucional da posição de Wiener.
39. Killian não pretendia minimizar os sentimentos de Wiener e acreditava sinceramente na centralidade de sua obra, mas pressupôs equivocadamente que a explosão desapareceria como tantas anteriores.
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Dessa vez, a decisão de Wiener não seria revertida.
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A ruptura assumiria caráter permanente.
40. Lettvin rejeitou posteriormente as justificativas apresentadas por Wiener, pois ele e Pitts haviam escrito a carta movidos apenas por entusiasmo científico e camaradagem.
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Somente muito depois teve acesso à extensa denúncia enviada ao presidente do MIT.
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Ficou perplexo diante da interpretação hostil atribuída a uma correspondência concebida como celebração do futuro trabalho comum.
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Considerava possuir evidências suficientes para contradizer praticamente todas as acusações formuladas.
41. As alegações de que McCulloch e seus colaboradores estavam enriquecendo com recursos públicos não correspondiam às condições concretas em que viviam e trabalhavam.
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McCulloch aceitara forte redução salarial para deixar a Universidade de Illinois.
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Patrick Wall também sofrera perda financeira significativa.
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Lettvin abandonara uma remuneração muito superior em Illinois para receber apenas três mil dólares anuais no MIT, apesar de sustentar esposa e dois filhos.
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O financiamento federal do RLE era distribuído amplamente e não proporcionava privilégios especiais ao grupo.
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McCulloch e Rook viviam num apartamento modesto em Kendall Square.
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Wall e a esposa dividiam uma residência simples com Lettvin e sua família.
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Pitts continuava vivendo precariamente.
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A escolha pelo MIT era justificada pela importância científica do trabalho, e não por vantagens materiais.
42. A denúncia do financiamento público era especialmente contraditória porque Wiener conhecia perfeitamente a estrutura financeira do RLE e continuou ele próprio trabalhando ali em projetos com Wiesner, Yuk Wing Lee e outros pesquisadores durante anos depois da ruptura.
43. Para Lettvin, a apresentação posterior de Wiener como alguém principialmente preocupado com o financiamento do laboratório era incompatível com seu comportamento efetivo antes e depois do conflito.
44. Nenhum dos integrantes do MIT compreendeu naquele momento a verdadeira causa da reação de Wiener, que não estava fundamentalmente relacionada ao financiamento, à carta de Pitts e Lettvin, às demais acusações profissionais ou mesmo à rejeição da autobiografia.
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O motivo decisivo permaneceria desconhecido durante quase dez anos.
45. Mesmo meio século depois, Lettvin continuava emocionalmente afetado pela ruptura e durante décadas recusara-se a divulgar publicamente todos os detalhes que posteriormente chegariam apenas ao seu conhecimento.
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A reconstrução completa dos acontecimentos surgiu gradualmente.
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Persistiam simultaneamente tristeza pela perda das relações e indignação com a maneira pela qual a ruptura fora produzida.
46. A convicção de Lettvin de que Margaret Wiener provocara deliberadamente a separação consolidou-se posteriormente.
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Num congresso internacional dedicado à memória de Wiener em Gênova, Lettvin realizou uma conferência cuidadosamente elogiosa sobre suas contribuições.
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Depois da apresentação, Margaret aproximou-se para cumprimentá-lo.
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Apesar da cordialidade exterior, Lettvin recordou sentir forte raiva porque acreditava que ela arquitetara a ruptura.
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Considerava que Margaret nutria hostilidade extraordinária contra McCulloch e desejava impedir sua proximidade com Wiener.
47. As razões exatas da antipatia de Margaret por McCulloch permaneciam difíceis de determinar, embora seu estilo pessoal e cultural contradissesse profundamente as normas que ela valorizava.
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McCulloch era exuberante, teatral e intelectualmente oracular.
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Sua maneira de falar podia parecer obscura e grandiloquente.
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Para Margaret, tal comportamento violava padrões de respeitabilidade e compostura.
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Lettvin acreditava que ela considerava McCulloch uma influência corruptora sobre Wiener.
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A aversão estendia-se também às pessoas associadas ao neurofisiologista.
48. Diversos elementos do modo de vida de McCulloch explicavam por que Margaret poderia considerá-lo moral e socialmente inaceitável.
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Seu carisma e seus maneirismos extravagantes contrariavam suas expectativas de respeitabilidade.
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Os aforismos obscuros e o estilo intelectual teatral escapavam às formas de pensamento que ela valorizava.
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O ambiente familiar de McCulloch era politicamente liberal e sexualmente permissivo.
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Seu consumo de álcool era amplamente conhecido nos círculos da cibernética.
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Pessoas próximas consideravam praticamente inevitável que alguém com os valores sociais de Margaret rejeitasse uma personalidade tão distante de seu universo cultural.
49. Peggy considerava igualmente provável que a mãe reagisse com extrema condenação ao modo de vida livre e sexualmente liberal da família McCulloch.
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Qualquer suspeita de comportamento considerado licencioso seria interpretada como sinal de depravação moral.
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A distância entre os dois mundos familiares tornava praticamente impossível uma compreensão simpática por parte de Margaret.
50. Além da condenação moral, Margaret podia acreditar que protegia Wiener de um ambiente potencialmente perigoso para sua estabilidade emocional.
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Conhecia melhor que os colegas a profundidade de suas crises depressivas e de suas tendências suicidas.
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Sabia que grande parte do ano anterior à ruptura fora marcada por sofrimento intenso.
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Poderia, portanto, interpretar o círculo boêmio de McCulloch como ameaça psicológica ao marido.
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Entretanto, essa justificativa encontrava forte limite na incapacidade de Margaret de compreender adequadamente os estados emocionais das pessoas próximas.
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As filhas e amigos acreditavam que ela própria frequentemente desencadeava as depressões de Wiener e pouco conseguia fazer para aliviá-las.
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Para Barbara e Peggy, a preocupação materna com o prestígio científico do marido era pelo menos tão importante quanto a preocupação com sua saúde mental.
51. A transferência de McCulloch para o MIT provavelmente foi percebida por Margaret como invasão do território científico de Wiener e ameaça à sua primazia institucional.
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Ela já demonstrara disposição para interferir diretamente na vida profissional do marido.
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Antes mesmo da instalação do novo laboratório, visitou Jerome Wiesner privadamente.
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Tentou persuadi-lo a abandonar o plano de trazer McCulloch e seu grupo para o MIT.
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Diferentemente da intervenção anterior que resultara na demissão de uma secretária, essa tentativa não produziu efeito.
52. Wiener soube posteriormente da intervenção da esposa e, meses depois, passou a apresentá-la como expressão de preocupações que ele próprio supostamente já compartilhava.
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Na carta enviada a Killian, afirmou ter sido contrário ao laboratório de McCulloch desde o início.
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Alegou ter permanecido em silêncio por não desejar atacar um colega.
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Justificou a reunião de Margaret com Wiesner como iniciativa pessoal dela motivada pela percepção de suas preocupações.
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Essa reconstrução dos acontecimentos podia, entretanto, ter sido fortemente influenciada pela própria Margaret.
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Wiener ainda se recuperava de operações de catarata e dependia amplamente do ditado para escrever.
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A esposa colaborava ativamente na produção de sua correspondência, aumentando sua capacidade de influenciar a formulação das mensagens.
53. Peggy interpretava as intervenções profissionais de Margaret como expressão de uma motivação social mais profunda.
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A preservação da posição social da família constituiria um eixo central de sua conduta.
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Qualquer ameaça ao prestígio científico de Wiener era simultaneamente percebida como ameaça à posição social da própria Margaret.
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Proteger a autoridade do marido significava, nessa perspectiva, proteger também sua identidade e seu lugar no mundo acadêmico.
54. Para conservar sua posição dominante na vida pessoal e profissional de Wiener, Margaret precisava impedir que novas relações científicas reduzissem sua influência como companheira e principal conselheira.
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Depois de fracassar na tentativa de convencer Wiesner, o período final no México oferecia a última oportunidade de impedir a colaboração antes do retorno de Wiener a Cambridge.
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McCulloch estava prestes a completar sua transferência para o MIT.
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Uma vez reunidos no RLE, os dois cientistas poderiam consolidar uma parceria difícil de desfazer.
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Qualquer argumento eficaz contra o grupo precisaria, portanto, atingir Wiener num nível pessoal tão profundo que não deixasse espaço para debate ou reconciliação.
55. À medida que se aproximava a data de retorno de Wiener, Margaret realizou uma última tentativa de destruir definitivamente a colaboração com McCulloch antes mesmo que o novo empreendimento pudesse começar.
56. Lettvin somente conheceu a causa profunda da ruptura cerca de dez anos depois, quando visitou Arturo Rosenblueth na Cidade do México.
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Durante um jantar, perguntou-lhe se sabia por que Wiener havia rompido de modo definitivo com todo o grupo.
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Rosenblueth surpreendeu-se ao descobrir que Lettvin desconhecia os acontecimentos ocorridos no México em dezembro de 1951.
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Sua narrativa finalmente forneceu o elo ausente na sequência de fatos.
57. Rosenblueth reconstruiu a noite em que Wiener, emocionalmente devastado pela autobiografia e pelas rejeições editoriais, recebeu de Margaret uma acusação muito mais perturbadora.
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A carta jocosa de Pitts e Lettvin chegara em momento particularmente desfavorável.
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No primeiro sábado de dezembro, Wiener recebera a negativa decisiva da Technology Press.
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Naquela mesma noite, durante um jantar dos casais Wiener e Rosenblueth, Margaret afirmou que jovens do grupo de McCulloch haviam seduzido Barbara durante sua permanência em Chicago quatro anos antes.
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A acusação não se limitava a um indivíduo: sustentava que mais de um integrante do círculo teria envolvido sexualmente a filha.
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Barbara era apresentada como jovem protegida e inocente cuja primeira saída do ambiente familiar teria terminado em abuso por pessoas nas quais Wiener confiava.
58. A acusação abalou Wiener profundamente e forneceu a causa imediata da ruptura.
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A ideia de que seus jovens protegidos teriam profanado a filha no ambiente de McCulloch produziu uma reação emocional imediata.
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Na manhã seguinte, Wiener enviou o telegrama de rompimento a Jerome Wiesner.
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No mesmo dia escreveu ao presidente Killian formalizando sua separação de McCulloch e do grupo do RLE.
59. A acusação decisiva, entretanto, não correspondia aos fatos e constituía uma fabricação de Margaret.
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Lettvin afirmou categoricamente que nada semelhante ocorrera.
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A narrativa surgira no momento em que Margaret percebia sua posição e controle sobre a vida de Wiener ameaçados.
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O padrão repetia décadas de tentativas de desacreditar Barbara.
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A mãe que acusara a filha de inventar histórias capazes de destruir reputações masculinas utilizava agora uma acusação falsa envolvendo a própria filha para destruir as relações profissionais do marido.
60. Wiener aceitou a versão da esposa sem realizar qualquer verificação independente.
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Não interrogou Barbara, que jamais fizera semelhante acusação.
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Não procurou McCulloch, Pitts, Lettvin ou os demais supostos envolvidos.
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Nenhum acusado teve oportunidade de responder.
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A intensidade da vulnerabilidade emocional de Wiener e sua confiança em Margaret transformaram uma alegação não verificada numa decisão profissional irrevogável.
61. A acusação pessoal também garantiu que a verdadeira causa da ruptura permanecesse oculta.
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Nas convenções sociais da década de 1950, Wiener dificilmente revelaria publicamente uma suposta desonra sexual da filha.
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Margaret podia, assim, contar com o silêncio do marido.
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Ao colaborar posteriormente na elaboração de justificativas estritamente profissionais, possibilitou que questões de financiamento, competência e autoridade científica funcionassem como cobertura institucional.
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Nenhuma autoridade do MIT conhecia a denúncia sexual subjacente e, portanto, ninguém podia investigá-la ou demonstrar sua falsidade.
62. Lettvin interpretava as acusações morais como cobertura de um temor ainda mais profundo: a crença de que McCulloch pretendia apropriar-se da cibernética e substituir Wiener como sua figura central.
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Considerava absurda qualquer ideia de que o grupo desejasse retirar de Wiener o mérito por sua ciência.
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Apesar disso, Wiener passou efetivamente a temer ser eclipsado.
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Em correspondência posterior, acusou McCulloch de ampliar deliberadamente sua própria importância dentro das conferências Macy.
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A antiga satisfação de Wiener com a divulgação internacional realizada por McCulloch transformou-se em suspeita de competição.
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A ameaça anterior de abandonar as conferências Macy foi finalmente cumprida.
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Wiener passou a justificar a saída pela convicção de que estava sendo progressivamente afastado da participação pública na própria área que criara.
63. Pauline Cooke interpretou igualmente o medo de perda de primazia como motivo central da intervenção de Margaret e comparou o drama à tragédia de Macbeth.
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McCulloch aparecia metaforicamente como o senhor escocês condenado pelas intrigas de uma figura semelhante a Lady Macbeth.
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Margaret seria a influência oculta que alimentava no marido o temor de ser destituído.
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A sugestão fundamental era de que, sem intervenção imediata, McCulloch e seu grupo ocupariam o centro institucional enquanto Wiener seria relegado a posição secundária.
64. As filhas de Wiener não ficaram inteiramente surpreendidas quando conheceram a verdadeira história.
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Peggy considerou a acusação de sedução compatível com o tipo de interpretação sexual que a mãe frequentemente produzia.
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Rejeitou também a justificativa financeira utilizada por Wiener, salvo se ela lhe tivesse sido implantada por outra pessoa.
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Recordava o pai como alguém fundamentalmente generoso.
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O entusiasmo de McCulloch e dos jovens pela futura colaboração parecia incompatível com qualquer tentativa deliberada de usurpar sua obra.
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Permanecia, entretanto, impossível determinar se Margaret inventara conscientemente a história por interesse próprio ou se realmente acreditava nela em consequência de uma obsessão.
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Barbara ficou ainda mais ressentida com a mãe, mas responsabilizou também o pai por aceitar passivamente uma acusação tão grave sem investigação.
65. Embora exteriormente procurasse manter-se firme, Wiener sofreu profundamente com a ruptura durante meses, chegando a apresentar sintomas cardíacos.
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Em março de 1952, informou a Morris Chafetz que a preocupação com “os rapazes” lhe provocara uma pequena crise de angina.
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Uma semana depois continuava intensamente irritado e descrevia o conflito envolvendo Wiesner, McCulloch, Pitts e Lettvin em termos extremamente negativos.
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Repetiu a referência ao episódio cardíaco, embora tranquilizasse Rosenblueth afirmando estar sob acompanhamento médico.
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A crise científica e pessoal adquiria, portanto, consequências diretamente somáticas.
66. Mesmo depois de alguma melhora na primavera de 1952, Wiener continuou durante muitos meses emocionalmente perturbado e desconfiado.
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Em abril acreditava que o conflito começava a resolver-se a seu favor, embora de maneira dolorosa.
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Declarava-se profundamente cansado e esperava não ter sofrido lesão cardíaca grave.
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Em julho ainda apresentava estado nervoso e medo persistente de que McCulloch e outros tentassem apropriar-se da cibernética.
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Quase um ano depois recusava-se a retomar com Wiesner um projeto de prótese destinada a permitir que pessoas surdas percebessem sons pelo tato.
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Problemas cardíacos, exaustão e depressão reduziram suas atividades de pesquisa e conferências durante grande parte daquele ano e do seguinte.
67. McCulloch e os jovens demoraram a compreender que a ruptura era definitiva porque inicialmente esperavam que se repetisse o padrão da crise de 1947.
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Pitts e Lettvin interpretaram o rompimento como explosão passageira.
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Colegas tentaram interceder em favor do grupo.
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Todas as tentativas fracassaram diante da recusa absoluta de Wiener em discutir a questão.
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Durante meses, ele não reconhecia sequer a presença dos antigos colaboradores.
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Quando se encontravam no RLE ou em outros espaços do MIT, McCulloch e os jovens cumprimentavam-no normalmente, mas não recebiam resposta.
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A ausência de explicação aprofundava a perplexidade do grupo.
68. McCulloch ficou profundamente abalado quando percebeu que perdera definitivamente a amizade e a parceria com Wiener.
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Continuou trabalhando, mas sua devastação emocional era visível.
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Poucos meses depois, pronunciou em Chicago um ataque extraordinariamente agressivo contra a psicanálise freudiana.
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O comportamento levou colegas a suspeitar que ele próprio atravessava uma crise emocional.
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Em outra conferência, observadores notaram comportamento e discurso irregulares.
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Lawrence Kubie associou parte dessa perturbação ao estado de raiva paranoide que Wiener demonstrava desde a chegada de McCulloch ao MIT.
69. Walter Pitts sofreu a consequência pessoal mais devastadora da ruptura.
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Wiener tornara-se para ele uma figura paterna substituta depois de uma infância marcada pela violência e abandono.
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Perder a relação significou perder grande parte do sentido que sustentava sua trajetória científica.
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O jovem extremamente tímido tornou-se quase inteiramente recluso.
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Passou a beber intensamente.
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Seu trabalho científico praticamente cessou.
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Destruiu os próprios manuscritos, inclusive o volumoso trabalho de doutorado sobre redes neurais aleatórias.
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A promessa de uma carreira científica excepcional foi interrompida de maneira praticamente irreversível.
70. McCulloch procurou interpretar simbolicamente a ruptura comparando-se a um cavaleiro realista e Wiener a um puritano parlamentarista da Guerra Civil Inglesa, reconhecendo assim uma incompatibilidade profunda de temperamentos e estilos de vida.
71. A separação ultrapassou amplamente a dimensão de um conflito familiar ou pessoal, tornando-se um acontecimento permanente e profundo com consequências para a própria história da cibernética.
72. O novo laboratório de neurofisiologia do RLE continuou produzindo pesquisas importantes, mas sem a participação de Wiener e, muitas vezes, sem direção direta de McCulloch.
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Lettvin, Patrick Wall, ocasionalmente Pitts e outros jovens pesquisadores formularam ideias que contribuiriam para constituir o campo posteriormente denominado neurociência.
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Equipamentos eletrônicos de alta sensibilidade desenvolvidos no próprio RLE foram aplicados sistematicamente ao cérebro e ao sistema nervoso.
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Geradores e detectores de sinais fracos, amplificadores, sincronizadores, câmeras, gravadores de dados e osciloscópios permitiram novas modalidades experimentais.
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Computadores analógicos e digitais começaram a participar diretamente dos estudos da atividade informacional em organismos vivos.
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A infraestrutura exaltada por Pitts e Lettvin em sua carta realizou efetivamente parte do programa científico que haviam imaginado, porém sem a colaboração de Wiener.
73. Quase simultaneamente à ruptura pessoal ocorreu uma divisão conceitual no próprio domínio das ciências da comunicação, separando progressivamente os paradigmas analógico e digital.
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O campo da comunicação, recém-unificado, começou a subdividir-se como uma célula em processo de mitose.
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De um lado permaneceu o universo dos processos contínuos e analógicos de comunicação e controle sistematizados por Wiener em Cibernética e em seus trabalhos anteriores.
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De outro emergiu o universo dos processos discretos, lógicos e digitais de informação formalizados por Claude Shannon em “Uma teoria matemática da comunicação”.
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Historicamente, a comunicação humana desenvolvera-se predominantemente em formas analógicas, dos gestos e da fala aos primeiros meios eletrônicos.
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As novas tecnologias, entretanto, incorporavam rapidamente a representação digital à sua arquitetura lógica e aos circuitos.
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O digital passaria progressivamente a simbolizar a própria essência da era da informação.
74. A separação entre os paradigmas transformou profundamente a prática dos engenheiros e começou também a pressionar cientistas de outras áreas a escolher entre abordagens concorrentes.
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A divisão alcançou as ciências técnicas da comunicação.
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Estendeu-se às pesquisas biológicas e neurocientíficas sobre comunicação orgânica.
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Influenciou igualmente psicologia e ciências sociais.
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Embora duas vias permanecessem abertas, a maior parte da comunidade científica e tecnológica começou a seguir a nova direção digital.
75. Para Lettvin, essa separação representava uma clivagem histórica que distribuiu diferentes pensadores conforme suas inclinações intelectuais.
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McCulloch, Shannon e von Neumann aproximaram-se crescentemente da lógica digital.
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Wiener, Bateson e outros participantes das Macy conservaram maior afinidade com processos analógicos e relacionais.
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A divisão obrigava todos a procurar uma nova orientação teórica para o futuro das ciências da informação.
76. Durante a formação de Pitts e Lettvin, os paradigmas analógico e digital ainda coexistiam e eram tratados como manifestações diferentes de princípios fundamentais comuns.
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Ambos partiam de elementos compartilhados existentes na natureza.
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Informação, comunicação e feedback apareciam em diversos tipos de sistemas.
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A computação era compreendida como atividade amplamente distribuída pela natureza e como fundamento possível da mente.
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Nas conferências Macy e em outros encontros, modelos analógicos e digitais podiam ser combinados livremente.
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O critério fundamental não era fidelidade doutrinária a um paradigma, mas adequação do método ao problema técnico, biológico ou social em questão.
77. Chegou-se inclusive a investigar máquinas capazes de combinar processamento analógico e digital.
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No RLE, instrumentos dos dois tipos eram utilizados lado a lado.
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Detectores analógicos e analisadores de ondas forneciam dados que podiam ser posteriormente processados pelo computador digital Whirlwind.
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Os dispositivos analógicos eram considerados conceitualmente ricos e capazes de representar diretamente fenômenos contínuos.
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Entretanto, sua construção e controle eram extremamente difíceis porque apresentavam comportamentos próprios e instabilidades.
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Quando os computadores lógicos passaram a executar funções contínuas complexas com maior confiabilidade, grande parte da necessidade prática das antigas máquinas analógicas desapareceu.
78. O ponto culminante da abordagem integrada e, paradoxalmente, um momento decisivo da posterior separação ocorreu no Simpósio Hixon, realizado no Instituto de Tecnologia da Califórnia em 1948.
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Von Neumann declarou que o cérebro humano era excessivamente complexo para servir como modelo direto de computadores.
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Questionou o próprio modelo McCulloch-Pitts de redes neurais, apesar de ter utilizado seus princípios na arquitetura digital.
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Reconheceu que o sistema nervoso apresentava simultaneamente características digitais e analógicas.
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O impulso nervoso possuía frequentemente caráter de tudo ou nada semelhante ao dígito binário.
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Essa propriedade, porém, constituía apenas uma parte do funcionamento cerebral.
79. Von Neumann aproximava-se assim da posição anteriormente formulada por Wiener ao reconhecer a importância dos mecanismos neuroquímicos e hormonais de caráter analógico.
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Mesmo o neurônio individual não poderia ser tratado como órgão puramente digital.
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Processos químicos poderiam ser tão ou mais importantes que os fenômenos elétricos.
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O método digital utilizado nos computadores talvez fosse profundamente estranho ao funcionamento real do sistema nervoso.
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As descobertas sobre o cérebro poderiam exigir uma reconstrução completa da própria lógica empregada para compreender a inteligência.
80. A crítica de von Neumann abriu um problema teórico importante justamente quando a indústria começava a produzir os primeiros computadores comerciais apresentados como “cérebros eletrônicos”.
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Seu modelo arquitetônico continuava sendo utilizado para construir máquinas digitais cada vez mais rápidas.
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Entretanto, o próprio arquiteto advertia que essas máquinas não reproduziam adequadamente o cérebro humano.
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A indústria não interrompeu sua expansão por causa dessa contradição.
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O problema, contudo, permaneceu intelectualmente incômodo para von Neumann, McCulloch, Pitts e Wiener.
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Cada um procuraria de alguma maneira impedir uma separação completa entre as compreensões analógica e digital dos processos cognitivos.
81. Para a neurociência, a coexistência dos dois modos de funcionamento apresentava uma dificuldade especialmente profunda.
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Os neurônios transmitem mensagens discretas.
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O processamento subjacente possui, entretanto, importantes propriedades contínuas e analógicas.
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McCulloch e Pitts reconheceram que o modelo original não representava adequadamente essa combinação.
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Uma formalização verdadeiramente fiel exigiria um esforço matemático e experimental extraordinariamente complexo.
82. McCulloch tentou durante anos revisar seu modelo das redes neurais, mas aproximou-se progressivamente de uma posição favorável ao paradigma lógico.
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Em vez de desenvolver plenamente um modelo híbrido analógico-digital, concentrou-se na tentativa de converter processos neurológicos em estruturas lógicas.
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Explorou lógicas multivaloradas e probabilísticas.
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Procurou incorporar elementos estatísticos provenientes de Wiener, von Neumann e Pitts.
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Sem a colaboração de Wiener e praticamente sem a de Pitts, porém, esse programa não alcançou a síntese ambiciosa originalmente imaginada.
83. Wiener já havia identificado em Cibernética um sistema cerebral de comunicação diferente dos mecanismos binários de tudo ou nada.
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Esse segundo sistema funcionaria mediante sinais químicos contínuos e probabilísticos.
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As mensagens seriam distribuídas amplamente pelo sistema nervoso a todos os elementos capazes de recebê-las.
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Wiener caracterizou-as como comunicações gerais dirigidas a qualquer receptor apropriado.
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Pouco depois, a ciência reconheceria uma ampla classe de mensageiros químicos especializados hoje conhecidos como neurotransmissores.
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Depois da ruptura com McCulloch, Wiener perdeu justamente os colaboradores com os quais poderia desenvolver experimentalmente essas especulações, especialmente Walter Pitts.
84. A tese de Pitts sobre redes aleatórias avançava paralelamente para uma concepção profundamente analógica e tridimensional do processamento cerebral.
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O modelo pretendia representar uma rede organizada em camadas e distribuída em três dimensões.
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Pitts investigava como a informação se transformaria ao atravessar essa estrutura.
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Empregava matemática contínua em vez de limitar-se ao cálculo lógico discreto.
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Wiener considerava esse projeto excepcionalmente promissor porque praticamente ninguém investigava algo semelhante.
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Pitts já havia produzido entre duzentas e trezentas páginas de resultados substantivos.
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O trabalho configurava uma teoria geral do processamento de dados em sistemas tridimensionais.
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Depois da ruptura com Wiener, Pitts interrompeu completamente a pesquisa e destruiu o manuscrito.
85. Não é possível determinar com segurança quanto a ruptura custou pessoal ou cientificamente aos envolvidos, nem reconstruir o desenvolvimento que teria ocorrido caso a colaboração tivesse continuado, embora existam indícios concretos das possibilidades perdidas.
86. A continuidade do grupo poderia ter produzido muito antes uma revisão do modelo cerebral baseado exclusivamente em redes neurais de tudo ou nada.
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Processos analógicos que ocuparam Wiener durante toda a carreira poderiam ter sido incorporados mais cedo às teorias científicas da mente.
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Muitos desses mecanismos ainda permaneceriam insuficientemente integrados aos modelos posteriores.
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Na computação, uma correção do modelo McCulloch-Pitts poderia ter influenciado a própria arquitetura de von Neumann.
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O desenvolvimento de máquinas capazes de combinar métodos digitais e formas de processamento mais semelhantes aos sistemas vivos poderia ter avançado numa fase formativa da indústria.
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A ruptura ocorreu precisamente quando o trabalho conjunto ainda possuía possibilidade concreta de influenciar a arquitetura das tecnologias que estruturariam a era da informação.
87. Lettvin evitava conjecturas contrafactuais, enquanto Selfridge considerava possível que a continuidade das conversas entre Wiener e McCulloch tivesse preservado maior atenção à teleologia e à ciência dos processos orientados por finalidade.
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Pitts poderia ter migrado naturalmente para a nascente ciência da computação.
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Sua extraordinária capacidade talvez lhe permitisse assumir liderança num dos novos campos em formação.
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Para Selfridge, a interrupção de sua trajetória não foi uma perda menor, mas uma tragédia científica e pessoal de grandes proporções.
88. Para Selfridge, a consequência mais grave atingiu a própria cibernética, pois o grupo que continuava a levar suas ideias a sério ficou separado justamente de Wiener, criador do conceito e principal formulador da perspectiva.
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O ambiente do RLE oferecia condições em que Wiener poderia ter desenvolvido plenamente seu modo interdisciplinar de pensar.
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A ausência total de interação entre ele e o grupo destruiu possibilidades que estavam precisamente alinhadas com seu programa científico.
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A ruptura causou, portanto, danos profundos à continuidade institucional e intelectual da cibernética.
89. Décadas depois, Lettvin recordava aquele período simultaneamente como época extraordinária de criatividade e como promessa interrompida.
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A lembrança dos antigos companheiros permanecia marcada por forte afeto.
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Wiener, apesar da ruptura, continuava sendo objeto de profunda admiração pessoal e intelectual.
90. McCulloch, Pitts, Lettvin e os demais haviam contribuído diretamente para o desenvolvimento da cibernética e para a evolução do próprio pensamento de Wiener, mas essa relação humana e científica foi destruída pela reação precipitada de Wiener e pela intervenção oculta de Margaret.
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O grupo oferecia elementos que Margaret não conseguia compreender ou valorizar.
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A camaradagem intelectual proporcionava a Wiener sentimento de aceitação.
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A convivência com McCulloch e os jovens suspendia temporariamente parte de suas preocupações e inseguranças.
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A perda atingia assim não apenas a produtividade científica, mas também uma das poucas comunidades em que Wiener encontrara espontaneidade e pertencimento.
91. A intervenção de Margaret, e não qualquer iniciativa de McCulloch ou dos jovens pesquisadores, interrompeu a continuidade da cibernética justamente em seu principal centro institucional, embora essa causa permanecesse desconhecida fora do pequeno círculo diretamente envolvido.
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No inverno de 1952, ninguém além de poucos participantes conhecia a verdadeira origem do conflito.
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As consequências científicas da ruptura levariam anos para tornar-se plenamente visíveis.
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A expansão tecnológica da década de 1950 continuaria, apesar da interrupção do núcleo colaborativo que poderia ter orientado parte de seu desenvolvimento.
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A influência internacional das concepções de Wiener permaneceria ampla mesmo sem a antiga equipe.
92. Depois da ruptura, Wiener reformularia progressivamente sua própria missão como cientista e direcionaria sua atividade para novos problemas e novas formas de intervenção intelectual.
