Ciborgue
CASSOU-NOGUÈS, Pierre. Les rêves cybernétiques de Norbert Wiener. Paris:Seuil, 2014
O ciborgue ou a humanização da máquina
Alguns ciborgues
1. A célebre passagem cartesiana sobre o cego que caminha à noite com um bastão descreve, sem nomeá-lo, um autêntico ciborgue: sistema híbrido orgânico e inorgânico em que homem e bastão interagem reciprocamente, o instrumento transmitindo informações sensíveis enquanto a mão o dirige.
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O bastão confere ao cego uma espécie de tato à distância, sexto sentido compensatório perfeitamente refinado naqueles que dele se servem desde sempre, funcionando como órgão novo tanto quanto a visão constitui sentido à distância.
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No esquema cartesiano, o bastão não difere em natureza do corpo ao qual se associa, sendo este descrito como máquina sem essência particular que o distinga da matéria inorgânica, de modo que o braço estendido pelo bastão permanece homogêneo ao próprio braço.
2. O termo “ciborgue” surge apenas em 1960, no artigo “Cyborgs and Space” de Clynes e Kline, que especulam sobre a adaptação humana ao espaço através da modificação ativa das próprias funções corporais autorreguladoras, em vez do simples confinamento numa bolha artificial reproduzindo as condições terrestres.
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O exemplo da respiração ilustra essa função autorreguladora inconsciente que poderia ser substituída por componente exógeno homeostático, dispensando pulmões convencionais em ambientes hostis.
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Diferentemente do caminhante cartesiano, o ciborgue de Clynes e Kline nasce vinculado ao contexto militar-espacial da NASA, sendo o cosmonauta um oficial da força aérea selecionado e treinado institucionalmente.
3. A relevância contemporânea da figura do ciborgue deve-se sobretudo ao “Manifesto Ciborgue” de Donna Haraway, publicado em 1985, que valoriza esse híbrido de máquina e organismo por sua capacidade de transgredir fronteiras entre orgânico e mecânico, animal e humano, e também entre os gêneros.
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Para Haraway, o ciborgue representa espécie de eu pós-moderno, coletivo e pessoal, desmontável e remontável, já efetivamente presente em nossos corpos hoje trabalhados pela técnica.
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Reconhecendo a origem militar-capitalista patriarcal do conceito, Haraway propõe seu uso blasfematório e irônico para desconstruir identidades fixas, sem por isso recair numa demonologia antitecnológica.
As palavras-mala
4. Wiener conhece e utiliza ao menos uma vez o termo ciborgue, citando e comentando passagem de K.W. Marek durante conferências em Yale que fundamentariam “God and Golem, Inc.”, apressando-se contudo a distanciar-se das fantasias de ficção científica desenvolvidas pelo autor.
5. Para Wiener, a intervenção cibernética deve operar apenas ao nível dos componentes - órgãos sensoriais, membros, efetores - sem tocar na organização estrutural geral do corpo humano, exemplificando essa continuidade histórica através de óculos e pernas de pau, próteses que a cibernética apenas aperfeiçoa.
6. O ciborgue de Wiener permanece essencialmente humano equipado de próteses, revelando-se ele particularmente hostil a neologismos compostos como “cyberculture”, que considera flagelo linguístico da vida moderna comparável ao ranger de um bonde numa curva sobre trilhos enferrujados.
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Wiener distingue seu próprio neologismo “cibernética”, forjado a partir do grego para designar ciência genuinamente nova, dos termos-mala como “ciborgue” ou “cibercultura”, que a seus olhos não designariam nada de efetivamente inédito.
As próteses cibernéticas
7. Desde a introdução de “Cybernetics” em 1948, Wiener distingue dois campos de aplicação para a nova ciência: a fábrica automática, perigosa para o humano, e a prótese, manifestamente benéfica.
8. O primeiro exemplo de aplicação protética enfatiza a retroação: a perda de um membro implica não apenas a perda física, mas também dos mecanismos de retroalimentação sensorial - cinestésica, tátil - que informam o sujeito sobre seu movimento efetivo, dificuldade que a perna de pau tradicional não resolve por carecer justamente dessa retroação.
9. O segundo exemplo baseia-se no trabalho de McCulloch e Pitts sobre reconhecimento de formas visuais através de modelo de rede neuronal facilmente reproduzível por computador, permitindo conceber máquinas de leitura para cegos que deslocariam a informação do registro visual ao auditivo, prótese que atua tanto sobre o olho quanto sobre o próprio sistema cerebral de reconhecimento.
10. Os trabalhos de Wiener sobre próteses giram assim em torno de três temas fundamentais: a retroação, a substituição de um sentido por outro, e a mecanização ou extensão maquínica do próprio cérebro humano.
A mão
11. Após fraturar o braço e o quadril numa queda de escada no outono de 1961, Wiener passa a colaborar com médicos hospitalares no desenvolvimento do “braço de Boston”, prótese para amputados de punho e mão que capta os potenciais elétricos dos músculos remanescentes do antebraço para acionar a mão artificial.
12. Wiener aspira aperfeiçoar esse sistema já em uso na Rússia introduzindo laço de retroação capaz de transmitir qualidades táteis captadas pelos dedos mecânicos de volta à pele do antebraço, idealmente conectando-se diretamente aos nervos seccionados para restaurar impulsos motores e sensoriais, reparando assim inteiramente o “aparelho” danificado.
A orelha
13. Em “L'Usage humain des êtres humains”, Wiener descreve a “luva auditiva” desenvolvida com Jerome Wiesner no MIT, dispositivo tão apreciado pelo cientista quanto sua “Palomilla”, capaz de codificar sons da fala em picadas táteis sobre os dedos para que surdos aprendam a acompanhar conversas, permitindo-lhes “ouvir com as mãos” assim como os cegos cartesianos “veem” através do bastão.
E o cérebro
14. Em “God and Golem”, Wiener classifica o computador como auxiliar mecânico do pensamento, situando o programador diante de sua máquina na mesma categoria de sistemas humano-mecânicos que o pirata com perna de pau, observando contudo que a medicina cibernética ainda toma o cérebro como dado, por permanecer este aparelho superior a qualquer substituto mecânico disponível.
15. Wiener isola tarefas como tradução e pesquisa bibliográfica que ainda escapariam à mecanização por exigirem apreciação intuitiva humana não redutível a critérios formais, sem contudo excluir definitivamente a possibilidade futura de a máquina vir a incorporar tal intuição, do mesmo modo que aprendeu a jogar xadrez e desenvolver estratégias comparáveis a uma personalidade.
Uma engenharia médica
16. Os sistemas humano-mecânicos evocados por Wiener constituem genuínos ciborgues carregando praticamente todas as conotações associadas ao termo, aproximando a medicina da engenharia através da figura do médico que doravante deve também “fabricar” e não apenas “descobrir”, justificando essa medicina cibernética futura pela analogia com o desenvolvimento histórico da engenharia elétrica.
17. Wiener reconhece que tais máquinas poderiam não apenas suprir deficiências, mas também potencializar capacidades naturais já existentes, atribuindo novos e potencialmente perigosos poderes àqueles que já os possuem, ainda que evite deliberadamente, ao contrário de Clynes e Kline, desenvolver essas possibilidades expansivas, mantendo seu ciborgue relutantemente inominado dentro dos limites estritos da humanidade.
Controlar a máquina
18. A distinção estabelecida na introdução de “Cybernetics” entre fábrica automática perigosa e prótese benéfica situa o humano protetizado como polo diametralmente oposto ao processo de mecanização que culmina na rejeição do trabalhador pela fábrica autônoma.
19. Wiener defende explicitamente que a máquina deve permanecer submetida ao controle humano, integrada como extensão dos poderes humanos e não como fim em si mesma, sendo a imagem protética justamente aquela que inverte a lógica mecanizadora: em vez do humano absorvido pela organização maquínica, a máquina é aqui absorvida pela organização humana.
20. Por essa razão estrutural, a figura do ciborgue revela-se essencial ao dispositivo cibernético como contrapeso à fábrica automática, muito embora Wiener não possa lhe atribuir nome próprio nem reconhecer explicitamente sua novidade, precisamente porque sua função exige que permaneça inteiramente subordinado e idêntico ao humano tradicional, remetendo antes ao cego cartesiano que ao cosmonauta ou ao híbrido pós-moderno de Haraway.
Alguns monstros
21. Os textos de Wiener povoam-se de criaturas estranhas e inquietantes - o animal-fábrica, a máquina que aprende a antecipar jogadas de xadrez, os sábios lobotomizados pela ciência a milhões, o consumidor ingênuo tornado tão previsível quanto um rato em labirinto, os “centésimos de homens” que a fábrica engole e depois regurgita.
22. Durante suas pesquisas de guerra sobre o canhão antiaéreo preditivo, Wiener opta por assimilar piloto e artilheiro a componentes puramente mecânicos, negligenciando deliberadamente o elemento humano imprevisível em favor de um análogo mecânico unificado, reduzindo assim, como observa Galison, esses primeiros ciborgues a meras máquinas que combatem sem razão própria.
23. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, as máquinas adquirem personalidade própria na experiência subjetiva dos pilotos, que atribuem aos fenômenos de retroação nas asas do avião a presença hostil de “gremlins”, criaturas fantásticas que dificultam manobras incomuns, numa inversão em que o humano se maquiniza enquanto a máquina se povoa de múltiplas personalidades.
24. O computador descrito nos termos com que se descreveria um humano adquire individualidade própria - rapidez extraordinária de cálculo contrabalançada pela incapacidade de pensar várias coisas simultaneamente, tendência à monomania e à repetição obsessiva de programas em loop, existência de vidas múltiplas dependendo de ser ligado e desligado - tornando-se assim espécie de gênio monomaníaco e meticuloso que morre e ressuscita indefinidamente.
25. Esses monstros cibernéticos nascem precisamente dessa troca de atributos entre humano e mecânico, sendo a fábrica automática o monstro wineriano por excelência, que mistura componentes quase orgânicos em estrutura contranatural e acaba por mutilar suas próprias criaturas ao mecanizá-las e depois rejeitá-las como inúteis.
26. Somente o ciborgue escaparia a essa hibridação monstruosa, representando via alternativa de ligação entre mutilação, máquina, humano e ciência: em vez de a ciência mutilar humanos para transformá-los em máquinas, a imagem protética inverte o processo ao reparar humanos mutilados através de máquinas, funcionando como talismã positivo contra a fábrica automática e sua adoração do artefato que declara o homem obsoleto.
O ciborgue pode permanecer humano?
27. Levanta-se questão fundamental sobre a solidez comparativa dessas duas figuras opostas: pode o ciborgue efetivamente deter o avanço mecanizador simbolizado pela fábrica automática, ou sua existência permanece precária e transitória, mero fantoche exumado à falta de alternativa melhor diante do avanço inexorável da mecanização?
28. Comparando o ciborgue cibernético ao cego cartesiano, nota-se diferença crucial: para Descartes, o homem permanece composto de corpo e alma, existindo órgão singular e irredutível - a glândula pineal - através do qual a alma exerce imediatamente suas funções, órgão que escapa a qualquer descrição ou substituição puramente mecânica.
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O ciborgue cartesiano poderia teoricamente substituir braços, pernas, estômago e memória por componentes mecânicos, preservando ainda assim sua humanidade essencial através dessa glândula irredutível ao mecanismo.
29. O homem cibernético, ao contrário, perdeu esse órgão singular, podendo em princípio ter cada um de seus componentes - incluindo o próprio cérebro - substituído por equivalente mecânico, restando a Wiener apenas a exigência vaga de preservar a organização estrutural de conjunto, sobretudo do sistema nervoso, sob pena de perder a vantagem comparativa sobre uma máquina construída.
30. Tal corpo inteiramente mecânico porém isomorfo ao corpo natural aproxima-se perigosamente do robô de Čapek, podendo inclusive adquirir propriedades sobre-humanas como a imortalidade através da reparação e substituição indefinida de peças, propriedades que distanciariam radicalmente esse ciborgue da noção habitual de humano, revelando-o também arrastado pelo mesmo movimento mecanizador que acompanha inevitavelmente a cibernética.
O bisturi do anatomista
31. É notável que, justamente ao descobrir e empregar o termo ciborgue em sua última obra, sublinhando o caráter “maravilhoso” desse sistema homem-máquina, Wiener reative simultaneamente a antiga imagem da ciência como vivissecção e mutilação, insistindo agora no caráter impessoal e inevitável dessa operação violenta.
32. Em “God and Golem, Inc.”, obra que ilumina aspectos teológicos através da cibernética comparando a situação de Deus perante suas criaturas à do homem perante suas máquinas, Wiener justifica forçar o sentido teológico invocando a analogia do bisturi do anatomista, instrumento que só explora fazendo violência, fonte mesma da ciência anatômica.
33. Wiener defende então que nenhuma consideração humanitária deve deter essa violência científica exploratória, afirmando explicitamente que amantes histéricos dos animais não fazem os melhores veterinários, e que o médico não deve deixar o pensamento sobre o bem da humanidade desviá-lo dos pormenores desagradáveis de sua pesquisa nem envergonhá-lo da excitação intrínseca a ela.
34. Essa justificativa da curiosidade científica pura revela-se, contudo, singularmente frágil, apoiando-se apenas numa espécie de harmonia preestabelecida “feliz” segundo a qual a curiosidada acabaria necessariamente por servir ao bem humano, sem que fique claro por que razão essa mesma curiosidade não poderia igualmente conduzir ao fim do humano, questão que ressoa diretamente com a culpa difusa que perpassa toda a autobiografia de Wiener quanto à vivissecção.
35. É significativo que Wiener escreva seu último ensaio situando-se explicitamente diante de um cadáver pronto para dissecação, evocando o espírito da mesa de operação em contraposição a qualquer cerimônia lacrimosa em torno de um cadáver, imagem que ressoa diretamente com o desfecho fúnebre de “Un savant réapparaît” dez anos antes, sepultamento de Lilienblum/Posner que seu duplo Norbert lhe recordaria não ser tão simples de dispensar sem alguma cerimônia própria.
