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Sonho

CASSOU-NOGUÈS, Pierre. Les rêves cybernétiques de Norbert Wiener. Paris:Seuil, 2014

O trabalho do sonho e o do matemático

O sábio, seu psicanalista e a matemática

1. Wiener submete-se a diversas psicanálises, iniciando a primeira ao final dos anos trinta, período em que a ascensão do nazismo torna ambivalente sua situação de judeu americano relativamente confortável frente à ameaça de extermínio na Europa.

2. Já antes de conhecer Freud, a experiência pessoal convence Wiener da existência de lacunas sombrias e pulsões ocultas na própria alma, resistentes à consciência, noção que aproxima posteriormente da vocação científica como camada de racionalização que recobre tais pulsões.

  • Wiener critica retrospectivamente seu primeiro analista por ignorar o lugar das matemáticas em sua vida, interessando-se apenas pela infância e pelos sonhos.

O inconsciente maquínico

3. Wiener descreve como as etapas de uma demonstração matemática chegam à consciência fora de ordem, e como um súbito nojo ao escrever geralmente indica a presença de um erro naquele ponto, contrastando esse processo com o de von Neumann, a quem as demonstrações chegariam já prontas, como um computador trabalhando por ele.

O trabalho do sonho e a criação matemática

4. Wiener relega ao inconsciente a parte mais difícil de seu trabalho intelectual, afirmando que suas ideias funcionam como mestres e não servos, resolvendo-se em grande parte durante o sono, insistindo assim sobre o caráter parcialmente inconsciente da criação matemática, sua função de resolver conflitos intelectuais e seu apoio num jogo de imagens.

5. O relato da pneumonia febril durante a qual Wiener obtém um de seus primeiros resultados matemáticos ilustra como a dor física, a dificuldade respiratória e o bater da cortina se confundem com a tensão matemática não resolvida, revelando que quase qualquer experiência pode simbolizar temporariamente uma situação matemática ainda não elucidada.

6. Wiener situa esse processo simbólico no estado hipnagógico entre vigília e sono, onde imagens manipuláveis voluntariamente fornecem simbolismo improvisado que conduz à elucidação matemática antes do retorno ao simbolismo formal habitual.

7. Num rascunho autobiográfico, Wiener associa a tensão crescente e a súbita liberação da resolução matemática a uma qualidade genuinamente prazerosa, comparável embora distinta da sexualidade, antecipando o tema central da ordem emergindo do caos.

A ordem no desordem

8. O primeiro resultado importante de Wiener constitui uma teoria matemática do movimento browniano, fenômeno de agitação irregular de partículas de pólen causado por choques moleculares aleatórios, comparável à marcha de um homem embriagado cujos passos não guardam correlação entre si.

9. Levanta-se a questão de saber se o jovem Wiener, sentindo em si mesmo lacunas sombrias e impulsos ocultos, teria buscado nessa teoria matemática do acaso alguma segurança ou meio de se libertar da tutela paterna e afirmar sua independência como matemático.

10. Em 1919, já instalado no MIT à beira do rio Charles, Wiener descreve explicitamente sua fascinação pela busca de regularidade matemática nas ondulações sempre mutantes da água, formulando a descoberta da ordem no desordem como a maior tarefa das matemáticas.

11. Ao longo da carreira, Wiener obtém seus principais resultados através de métodos de análise harmônica ou transformadas de Fourier, aplicando essa mesma técnica a domínios extremamente variados, da distribuição de números primos ao cálculo da onda de choque da bomba atômica.

12. Os elementos científicos que fundamentam o desenvolvimento posterior da cibernética - análise da retroação, teoria da informação, estudo de encefalogramas - derivam desse mesmo fio condutor unificador identificado pelo próprio Wiener entre seu trabalho sobre o movimento browniano e a cibernética tardia: fazer emergir ordem a partir de um desordem primeiro.

13. Wiener aproxima explicitamente Gibbs, Freud e os teóricos modernos da probabilidade como representantes de uma mesma tendência de reconhecimento do elemento fundamental de acaso tanto no universo físico quanto na conduta humana irracional.

14. Um colega físico próximo de Wiener relatado por Heims observa que, ao falar de caos, Wiener sempre parecia à beira de falar do caos psíquico instintivo que o assustava e fascinava, apontando para a questão de qual elemento - o temor pessoal do caos interior ou o sucesso matemático obtido - teria primazia na constituição dessa unidade, questão que Wiener jamais resolve explicitamente.

15. O próprio relato da pneumonia, em que a separação entre dor física e tensão matemática se torna impossível, sugere que o desordem psíquico e o desordem matemático se simbolizaram mutuamente até se tornarem indissociáveis, restando apenas a intuição central de dominar o desordem, tanto na vida quanto na matemática de Wiener.

Primeiras máquinas

16. A busca de ordem no desordem aparente aproxima-se do procedimento do romance policial, no qual o detetive reconstitui uma individualidade a partir de indícios dispersos, sugerindo afinidade entre esse método e a afeição pessoal de Wiener por esse gênero literário.

17. Permanece em aberto até que ponto a cibernética depende efetivamente dessas mesmas matemáticas ou se estas representam apenas via de acesso contingente a um mundo cujo verdadeiro motor seria outro, entrecruzando-se no tema da ordem e desordem o tema paralelo da máquina e da criatura artificial, o mito de Frankenstein.

18. Wiener recorda ter sonhado, ainda criança, em construir autômatos quase vivos após ler artigo sobre o sistema nervoso, ideia que sobreviveria por anos até ser suplantada pela neurofisiologia formal na vida adulta, contemporânea a outro episódio infantil em que imaginava poder animar uma boneca através de encantamentos.

As lições paternas

19. A educação de Norbert, quase inteiramente ministrada pelo pai em casa, é marcada por episódios de transformação abrupta do pai afetuoso em figura aterrorizante diante do menor erro de cálculo, acompanhados de insultos duros, permanecendo Leo Wiener “mestre absoluto” do filho mesmo após sua formatura precoce em 1909.

20. Artigos publicados pelo próprio Leo Wiener atribuindo todo o sucesso do filho unicamente ao mérito de seu método pedagógico produzem efeito devastador em Norbert, que jamais se rebela contra essa interpretação, reconhecendo até no fim da autobiografia dever ao pai tanto os genes quanto a educação que o formaram inteiramente.

21. A ausência quase total da figura materna nesses relatos, somada à ideia de uma matéria informe moldada inteiramente pelo pai, evoca diretamente o romance de Mary Shelley, sugerindo que o pai fabricou o filho como o Dr. Frankenstein fabrica sua criatura, ideia reforçada pelo texto em que Wiener compara a educação paterna à criação artística sobre matéria bruta.

22. O caso do outro prodígio W.J. Sidis, cujo pai psiquiatra é acusado por um correspondente anônimo de cometer “vivissecção espiritual” sobre o próprio filho em nome da devoção científica, formula nos termos mais duros essa associação entre educação científica e crime capital.

O pai, o filho e a máquina

23. A ideia de que o cientista dedicado à ciência pode ser culpado de crime capital ao submeter sua progênie a uma vivissecção conecta-se diretamente à questão do assassinato em “Un savant réapparaît”, sugerindo que a ciência, mesmo exercida com integridade, pode conduzir ao crime.

24. O filho fabricado pelo pai torna-se, à semelhança da criatura de Frankenstein, um monstro, autodescrição recorrente de Wiener em sua autobiografia, que se apresenta ele próprio como retrato de um monstro fabuloso.

25. Numa segunda consequência dessa relação, o filho reproduz na ciência o mesmo papel criador do pai, ilustrado pela figura de Pigmalião tanto na descrição da fabricação do filho quanto na descrição do próprio trabalho matemático como ato de dar vida e forma a matéria inerte.

26. Ultrapassando a matemática, é sobretudo na cibernética que Wiener ocupa efetivamente essa posição de criador de uma criatura artificial monstruosa, o homem-máquina, produzindo uma linguagem comum capaz de descrever tanto a máquina em termos humanos quanto o humano em termos maquínicos.

27. Conclui-se que a máquina lógica da ciência reproduz estruturalmente a relação ao pai: assim como o pai forma o filho tornando-o uma espécie de monstro, o filho forma por sua vez sua própria criatura maquínica, igualmente monstruosa e representando um humano diminuído, interpretação cuja objetividade se sustenta na prevalência cultural compartilhada dos modelos literários de Pigmalião e Frankenstein.

Mutilações, vivissecções

28. Apesar de reconhecer a ressonância freudiana do conflito pai-filho em sua obra, Wiener marca explicitamente distância em relação ao vocabulário freudiano, advertindo o leitor contra traduzir seus enunciados nesses termos, apesar de tê-los deliberadamente rejeitado com plena consciência da possibilidade.

29. A educação vegetariana e antivivisseccionista imposta pelo pai tolstoiano, cercada de panfletos horríveis contra a crueldade animal, aterroriza o jovem Norbert diante de qualquer sinal de mutilação, ao mesmo tempo em que o atrai secretamente para livros de biologia e medicina contendo imagens de deformidades e execuções.

30. Aos doze anos, Norbert participa do roubo e vivissecção fatal de uma cobaia de laboratório na artéria femoral, episódio pelo qual se julga culpado perante o “tribunal de sua própria consciência”, ilustrando perfeitamente o tema da ciência assassina e da culpabilidade do sábio.

31. O conto “The Day of the Dead” retrata explicitamente essa vivissecção: o Dr. Vasquez paralisa com curare o inspetor americano Smythe, agente da “ciência a milhões”, submetendo-o consciente a uma operação cruel, enquanto outro conto mostra o neurologista Dr. Cole lobotomizando secretamente um chefe da máfia responsável pela morte de sua família.

32. Comparado a Smythe, submetido a lenta tortura, Lilienblum/Posner sai relativamente bem com um tiro rápido, mas nota-se inversão significativa: nesses contos, o assassino Vasquez pertence ao lado dos “bons” sábios como Lilienblum/Posner, enquanto a vítima Smythe se alinha com os maus cientistas do tipo De Gratiansky, tornando a vivissecção uma operação simpática quando praticada pelos bons médicos.

Uma carta

33. Numa exceção notável no corpus de Wiener, uma carta ao editor que recusara a primeira versão de sua autobiografia inverte essa lógica: aqui é o bom sábio quem arrisca ser vítima da vivissecção da má ciência, ao defender a necessidade de escrever sua confissão pessoal porque a matemática, fria como o mármore do escultor, não basta para expressar plenamente o sujeito humano.

34. Wiener denuncia nessa carta seu tempo como uma era bizantina que mutila diretamente o cérebro através da lobotomia frontal, extensão grotesca de uma política que alimenta os cientistas com meio-saber para transformá-los em agentes servis dos verdadeiros heróis da época, os homens de negócios.

A psicanalista e o editor

35. Ao consultar sua psicanalista Janet Rioch sobre a conveniência de manter na autobiografia as passagens sobre prazer na vivissecção e medo da mutilação, Wiener recebe interpretação que relativiza a explicação freudiana da “angústia de castração”, mas acaba por preferir a opinião de seu editor, que recomenda manter o episódio por seu interesse considerável, revelando maior confiança editorial que psicanalítica.

A pata de macaco

36. É notável que Wiener jamais cite explicitamente Frankenstein apesar da evidente pertinência do mito, recorrendo antes preferencialmente à referência da “Pata de Macaco” de W.W. Jacobs, na qual um pai que deseja dinheiro vê seu filho morto retornar horrivelmente mutilado, sendo forçado a desejar seu desaparecimento final.

37. Wiener compara a técnica a essa pata de macaco, que realizará exatamente o que lhe pedirmos, exigindo por isso reflexão cuidadosa sobre nossos verdadeiros desejos, ressoando a figura paterna da novela tanto na ameaça de mutilação tecnológica quanto na imagem do próprio pai de Wiener pronunciando leis morais sobre os panfletos antivivissecção.

Novamente, o balanço da investigação

38. O jovem Norbert refugia-se nas matemáticas e na biologia, territórios onde o pai não pode segui-lo, podendo ali experimentar livremente até desenvolver a cibernética no cruzamento dessas duas disciplinas, criando criaturas bizarras meio mecânicas, meio humanas, repetindo assim o mesmo jogo que o pai parece ter jogado consigo.

  • A máquina cibernética representa o termo de uma relação reatualizada entre pai e filho.
  • Por essa razão, a máquina constitui imagem mutilada ou monstruosa do próprio sujeito.
  • Consequentemente, ela é suscetível de se voltar contra quem a produziu.
  • A ciência e os cientistas, mesmo os mais íntegros e dedicados, mutilam aquilo que produzem e colocam a humanidade em perigo, não apenas os maus sábios movidos pelo dinheiro das armas.

39. A citação jornalística final, na qual Wiener afirma que o homem estaria se recriando a si mesmo, monstruosamente ampliado, à sua própria imagem, através das novas máquinas capazes de aprender como crianças precoces e monstruosas, sintetiza precisamente essa concepção da máquina como autorretrato do sábio enquanto criança monstruosa.

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