Tecnologia autônoma
WINNER, Langdon. Autonomous Technology. Technics-out-of-control as a Theme in Political Thought. Cambridge: MIT Press, 1977.
Um dos aspectos importantes da ideia de tecnologia autônoma é que ela se propõe a desmistificar o sonho do domínio, mostrando que, na prática, esse sonho deu errado. Nas reflexões modernas sobre a técnica, um pensador após o outro tem considerado necessário questionar as concepções e crenças fundamentais que sustentam a maneira como os homens ocidentais pensam sobre sua relação com as possibilidades tecnológicas. Especificamente, depara-se com um conjunto de noções, outrora consideradas totalmente confiáveis, que se tornaram alvo de dúvidas generalizadas. São elas:
— que os homens sabem melhor do que ninguém o que eles próprios criaram;
— que as coisas que os homens criam estão sob seu controle firme;
— que a tecnologia é essencialmente neutra, um meio para um fim; o benefício ou dano que ela traz depende de como os homens a utilizam.
Na perspectiva convencional, as obras da tecnologia são mais do que certas; são duplamente certas. Como os seres humanos são tanto os projetistas quanto os criadores de suas criações, eles têm conhecimento preciso de sua construção. Sabem exatamente como as coisas são montadas e como podem ser desmontadas. Além disso, as obras da tecnologia são certas no sentido de que sua construção depende da posse de conhecimento válido, seja proveniente da experiência cotidiana, seja de uma ciência apropriada. Em sua *Metafísica*, Aristóteles explica que a *techne* (“arte” ou “ofício”) é superior à mera experiência porque combina essas duas formas de conhecimento. “A arte nasce quando, dentre os muitos fragmentos de informação derivados da experiência, surge uma compreensão dessas semelhanças, em vista das quais elas constituem um todo unificado.” “Acreditamos que o conhecimento e a compreensão caracterizam a arte, e não a experiência… Homens experientes discernem o fato ‘que’, mas não a razão ‘por que’; enquanto os especialistas conhecem a razão e a explicação.” Aristóteles conjectura que o primeiro homem a inventar uma arte ou ofício foi visto com admiração por seus semelhantes, não apenas porque havia algo útil em suas descobertas, mas também porque os outros o consideravam sábio e superior. Os mestres artesãos são, presumivelmente, mais sábios não apenas porque são práticos, mas porque têm razões e podem explicar o que estão fazendo.
Aquilo que os homens criaram, eles também controlam. Isso é senso comum. O controle, afinal, faz parte do próprio projeto das criações técnicas. Aparelhos e técnicas são concebidos com propósitos definidos em mente. Por meio da manipulação consciente desses meios, os homens são capazes de alcançar fins estabelecidos de antemão. Embora possa ser necessário um certo tempo para encontrar instrumentos que sejam eficazes, uma vez descobertos, eles deixam de ser uma fonte de dificuldade. Os meios técnicos são, por sua própria natureza, meras ferramentas sujeitas à vontade de quem os emprega. A combinação fortuita de certeza e controle na atividade técnica exerce um grande fascínio sobre a política. Muitas formas históricas de arte de governar e quase todas as concepções de utopia assentam em um modelo implicitamente tecnológico. Quando as condições do mundo político parecem incertas, incontroláveis ou de alguma forma indesejáveis, a técnica e o artifício oferecem uma solução tentadora. Por meio do recurso consciente a meios artificiais, é concebivelmente possível, nas palavras irônicas de Oscar Wilde, “proteger-nos dos perigos sórdidos da existência real”. Se fosse possível refazer o mundo, se fosse possível moldar as condições da realidade para se adequarem a um projeto pré-concebido, tanto a certeza quanto o controle estariam assegurados. Essa é a solução que Thomas Hobbes ofereceu: “Pois pela arte é criado aquele grande LEVIATÃ chamado REPÚBLICA ou ESTADO”, uma ordem política que seria mais perfeita, uma vez que fosse construída do zero com base em princípios inteiramente racionais. De uma forma ou de outra, essa é também a receita que nos foi apresentada por Platão, Saint-Simon, Owen, Madison e a análise de sistemas contemporânea.
A tecnologia é essencialmente neutra. Na maneira convencional de pensar, o contexto moral apropriado às questões técnicas é inteiramente claro. A tecnologia nada mais é do que uma ferramenta. O que os homens fazem com as ferramentas, é claro, é “usá-las”. A ferramenta em si é completamente neutra — um meio para o fim desejado. Se o fim alcançado é sábio ou insensato, belo ou hediondo, benéfico ou prejudicial, deve ser determinado independentemente do instrumento empregado. Esse julgamento também se aplica aos maravilhosos avanços da tecnologia moderna. Os novos dispositivos, independentemente de seu tamanho e complexidade, continuam sendo ferramentas que podem ser bem ou mal utilizadas. Nas palavras de H. L. Nieburg: “A ciência e a tecnologia são essencialmente amorais e seus usos são ambivalentes. Seu milagre aumentou igualmente a escala tanto do bem quanto do mal.” A neutralidade da tecnologia e a ética do uso de ferramentas são verdades evidentes que se esforçam para se tornar clichês. Isso não tem sido um obstáculo para as dezenas de autores que, na última década, resgataram essas ideias e as apresentaram como insights surpreendentes sobre a condição moderna. Na tentativa de corrigir a posição de que a tecnologia é intrinsecamente benevolente, ao mesmo tempo em que evitam a noção de que ela é intrinsecamente maligna, esses autores redescobriram o óbvio.
As três proposições que delineei aqui são notavelmente razoáveis. Elas são fundamentais para qualquer compreensão do domínio humano por meio da tecnologia. No entanto, permanece o fato de que grande parte do debate moderno sugere que essas ideias não são mais totalmente válidas, dadas as condições da técnica avançada.
