PÓS-MODERNISMO MARCA A ENTRADA DAS ASPAS NA FILOSOFIA
FERRARIS2012
O pós-modernismo marca a entrada das aspas na filosofia: a realidade se torna “realidade”, a verdade “verdade”, a objetividade “objetividade”, a justiça “justiça”, o gênero “gênero”, e assim por diante. Na base dessa nova colocação de aspas no mundo estava a tese segundo a qual as “grandes narrativas” (rigorosamente entre aspas) da modernidade ou, pior ainda, o antigo objetivismo eram a causa do pior tipo de dogmatismo. Em vez de ser fanáticos, é melhor nos tornarmos “teóricos irônicos” que suspendem a peremptoriedade de qualquer afirmação que fazem, vendo nos fatos, normas e regras um mal em si. (Roland Barthes representou bem o Zeitgeist quando — só meio brincando — disse que a linguagem é “simplesmente fascista” porque tem semântica, sintaxe e gramática.) A aspas, em suas variações tipográficas, significa um distanciamento que também pode manifestar aproximação lexical, ou seja, desatenção, ou uma citação real, ou seja, parasitismo: há uma realidade construída por outros e nós, como desconstrutores, ironizamos sobre ela, achando que assim cumprimos nosso papel.
Colocar entre aspas é, na verdade, um gesto semelhante à epoche de Husserl, à suspensão do juízo, ao deixar de lado a existência dos objetos em exame para apreendê-los em sua dimensão fenomênica. Mas, em comparação com a colocação entre parênteses, a colocação entre aspas é uma estratégia muito diferente. Algo que em Husserl era um exercício filosófico se transforma em um protocolo de correção política pelo qual se proclama que quem ousasse retirar as aspas estaria cometendo um ato de violência inaceitável ou ingenuidade infantil, afirmando tratar como real algo que, na melhor das hipóteses, é apenas 'real' ou “real”. Essa tese, que implicitamente transformava em fanático quem — ainda que com plena legitimidade — acreditava possuir algum tipo de verdade, impediu (pelo menos na intenção) o progresso na filosofia, transformando-a em uma doutrina programaticamente parasitária que se referia à ciência para qualquer afirmação de verdade e realidade e se limitava a colocar aspas.
Se então descemos dos céus da teoria para a realização concreta de uma “teoria irônica” como a adesão eternamente parcial a nossas afirmações e crenças, as consequências da ironização podem ser intuídas ao nos perguntarmos, por exemplo, o que seria “uma testemunha pós-moderna irônica” em um tribunal onde, em vez de “justiça igual perante a lei”, estivesse escrito “não há fatos, apenas interpretações”. Deixando de lado experimentos mentais e chegando a eventos reais, o quão pouco a ironização implica emancipação é amplamente demonstrado pelo abuso do riso, da graça e da farsa no populismo midiático, que, em vez disso, forneceu uma confirmação adicional da hipótese etológica de que a expressão facial do riso é um legado do ato de mostrar os dentes — que, nos animais, precede a agressão.
